1 Indústria fonográfica: a reinvenção de um negócio Marcia Tosta Dias 1 [Publicado em Economia da arte e da cultura. Bolaño, Golin e Brittos (orgs.). SP: Itaú Cultural, 2010. P. 165-183] As profundas transformações que distinguem o panorama atual da música gravada no mundo, tornaram-se mais nítidas há aproximadamente dez anos. Por meio das particularidades trazidas pela tecnologia digital, a posição hegemônica ocupada pela grande indústria fonográfica, durante grande parte do século XX e nos quatro cantos do mundo, enfrenta um grande abalo. No centro do debate está a questão da propriedade dos meios de produção e de difusão de música gravada, bem como a da rígida aquisição dos direitos sobre as obras produzidas. Mais do que isso, sua posição de propositores de conteúdo - com a prerrogativa de escolha, dentre um vasto conjunto vasto de opções, da cultura musical que segundo seus critérios deve ser amplamente difundida - é também posta em xeque. A crise tem tomado tal dimensão, a ponto de levar estudiosos e militantes a considerarem que uma nova sociedade e uma nova cultura estão de fato em formação. Mas o analista afeito ao traçado de panoramas está em dificuldades. Desde que a produção musical deixou de se realizar somente no âmbito das relações entre grandes e pequenas gravadoras e a fragmentação globalizadora da produção capitalista afetou em cheio a produção cultural industrializada, proliferam iniciativas nas mais diversas formas, fazendo dos objetos de estudo, fugidios corpos num terreno especialmente movediço. A bibliografia sobre o tema, que já não era farta, hoje dedica-se – mesmo que de forma mais consistente – a enfoques muito específicos, da mesma forma que os dados disponíveis são os oficiais, oferecidos pelas gravadoras, suas associações e por algumas entidades governamentais. Apesar de tais ressalvas, este capítulo quer resgatar certa unidade ao processo, buscando avaliar o lugar ocupado atualmente pelos agentes sociais que sempre conduziram a produção de música gravada, como as grandes empresas, identificando suas estratégias de sobrevivência, e por aquelas empresas de menor porte, as independentes - cujo perfil também se transforma significativamente - e por um conjunto de iniciativas autônomas e informais, ainda não cientificamente conhecidas, que trazem grande complexidade ao quadro. Em todas as frentes, trata-se de garantir posições historicamente conquistadas, como no caso do big 1 Professora da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, Campus Guarulhos.