40 AVANCA | CINEMA 2011 Do silêncio à acção Claudia Lopes Universidade de Aveiro, Portugal Pedro Bessa Universidade de Aveiro, Portugal Paula Tavares Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, Portugal Abstract From silence to action: silence taken as a foundational action that allows creative processes. It is a blankness that precedes the moment of creation but also stands for a search for perfection, the un-representable, the Sublime. The ‘art moment’ is that what is created from such emptiness, in the vertiginous abyss from nowhere to action. We will work this complex process of understanding if an action precedes the silence or if the silence precedes the action. Analyzing art process, considering its phases, from the tension between either to create or not to create will be related with the potency refereed by Agamben regarding Bartleby: starting with blankness, with the invisibility of potency, when communication is urgent. When “the blues” are called into participation, when the melancholic state installs the potency of the work both to grow or be doubted, of to do or not to do, how do we read agency? Is silence the action? Should the action rest in silence? What to do? Remain in the state of pure potency or prove the impossibility to create form? Nowadays, the pensive image counters the logic of the narrative action. On the one hand, the image extends the action on the other hand suspends any given presumption. The artistic process carries on, in its poetic freedom, a search without the enslavement of representational forms. Keywords: Art, Process, Form, Anxiety, Emptiness. Introdução “As minhas ideias! Custa-me construir a casa onde alojá-las.” (Joubert ) 1 A folha em branco é a metáfora para o início, o ponto de partida do acto de escrever, do acto de criar 2 . Ela pede acção, provoca ânsia, angústia... o processo começa. Em 1953, Robert Rauschenberg num acto neo-dadaísta cria uma das suas obras mais emblemáticas ou talvez polémicas Erased De Kooning. O processo de apagar, despojar da forma inicia-se com os seus próprios desenhos, mas para Rauschenberg este acto quase performativo necessitava de uma maior “tensão”. William De Kooning uma das figuras de referência do Expressionismo Abstracto, por quem Rauschenberg nutria uma admiração é então o eleito. Esse gesto entendido como icónico e iconoclasta (Katz 2006) teria de ser árduo, e de entre várias opções escolhe um desenho feito a óleo, tinta e outros materiais. Rauschenberg passa um mês inteiro apagar. O resultado é um desenho vazio, um desenho fantasma. Rauschenberg cria uma poética da não-forma. A anulação da acção de De Kooning a que Rauschenberg se submete, criando sobre a acção criadora do outro, é a acção da negação da acção prévia, é a acção tornada resquício. Tal como Rauschenberg apaga criando, as- sim também decorre o processo da escrita ou, na verdade, o de qualquer criação. Também o ensaio, a escrita dita “científica”, a preparação de um trabalho académico, reflectem esse processo de afirmação-negação: primeiro os conceitos dos autores estudados, depois a sua transcrição e a forma quase aprisionada de reflectir com eles; em seguida o apagar camada por camada e o voltar ao início, ao vazio, à potência de pensar sobre o pensamento dos outros. Silenciar para depois agir. No início existe a ânsia da acção, e nessa ânsia permanece a potência. A folha branca permanece em potência, é uma “tábua sobre a qual nada está ainda escrito” (Agamben 2007:12). Do início, do começar, do recomeçar, do avançar e recuar, o que fica é a rasura permanente do acto. E é nesse início, nessa possibilidade onde por vezes se encontra a impossibilidade do agir, é nesse pré-acto que se cria a força e que a potência se afirma. Entre o agir e o não agir, o criar e o não criar existe o potencial, o que está em potência e ainda não tomou forma. Nele está o princípio, o abismo hiante do sem forma. Instala-se então a tensão entre o avançar e o desistir, entre o criar e o não criar. Espera-se um tempo, o tempo necessário à acção - e é a inércia o tempo da potência. A suspensão da criação na potência. A figura de Bartleby como paradigma. Bartleby, protagonista da novela Bartleby, the Scrivener: A Story of Wall-street (1853) de Herman Melville, é um 1 Pensées, essais, maximes et correspondance de J. Joubert… recueillis et mis en ordre par M. Paul Raynal, Paris 1842. Joseph Joubert (1754- 1824) constitui o arquétipo do escritor sem livro. http://oquecaidosdias.wordpress.com/2007/09/24/a-arca-de-joseph-joubert/ (acedido a 15/01/2011). 2 A folha em branco, o espaço vazio da tela, o perímetro de um palco. Cf. por exemplo Peter Brook, The Empty Space (Londres: McGibbon & Kee,1968), reflexão em torno do conceito de representação teatral, e das potencialidades de um palco (stage) vazio.