De Roma a Évora, com André de Resende Susana Matos Abreu 1 De Roma a Évora, com André de Resende: Cidade e “Património” na História da Antiguidade da cidade de Évora 1 Susana Matos Abreu 2 Hoje, de tanto se pensar, escrever e falar sobre a Cidade e o Património, o resultado das nossas acções sobre estas realidades materiais esclarece-se por um cruzamento de registos em que aqueles se percepcionam vividos, pensados, ou “lidos”. As influências parecem recíprocas: a cidade fornece o material que a obra literária pensa; mas acolhe e fermenta o pensamento sobre si própria, regenerando-se em conformidade com os paradigmas que este estabelece. Apresenta-se aqui um estudo de caso numa perspectiva comparatista, no qual, entre a realidade material da urbe e a escrita sobre ela com enfoque no seu património, se divisa a influência de certos paradigmas históricos e literários que rodeiam a mesma temática. O presente caso convida a uma viagem de Roma a Évora, tendo por pano de fundo o tecido histórico-literário do século XVI. Munidos da História da Antiguidade de Cidade de Évora, da autoria de André de Resende, procuramos interpelar os caminhos pelos quais andava o pensamento sobre a Cidade e o seu Património no Portugal Quinhentista, e como este eventualmente resultaria em acções materiais sobre a cidade enquanto estímulo antinómico de preservação e mudança. Algo autónomo, mas necessário para cabalmente entender esta complexa relação, é o debate em torno dos spogli, fragmentos lapidários, escultóricos ou arquitectónicos retirados de construções antigas. Tratados como “património móvel” a partir do momento em que são descontextualizados, tornam-se objecto de “musealização” por entidades particulares, sendo às vezes regurgitados para a própria cidade, reintegrados num display urbano. O debate gerado no século XVI em torno destes testemunhos materiais do passado congrega novamente a dualidade dos registos histórico e literário aqui apontada. Só a abordagem destes na sua cumplicidade permite uma boa aproximação ao entendimento do “Património” e do seu valor para a sociedade de Quinhentos, bem como dos estímulos para a sua “preservação” e dos mecanismos, ainda inconsistentes, que a garantiram. 1 O presente texto trata-se da primeira parte de um estudo mais alargado, a publicar em fases sequentes. 2 Arquitecta (F.A.U.P.), Mestre em História da Arte (F.L.U.P.).