DOMINGOS FERREIRA: UM VIOLEIRO PORTUGUÊS EM VILA RICA Paulo Castagna Maria José Ferro de Souza Maria Teresa Gonçalves Pereira CASTAGNA, Paulo; SOUZA, Maria José Ferro de; PEREIRA, Maria Teresa Gonçalves. Domingos Ferreira: um violeiro português em Vila Rica. In: LUCAS, Maria Elisabeth; NERY, Ruy Vieira. As músicas luso-brasileiras no final do antigo regime: repertórios, práticas e representações; colóquio internacional, Lisboa, 7 a 9 de junho de 2008. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda e Fundação Calouste-Gulbenkian, 2012. p.667-704. ISBN: 978-972-27-2026-7 Resumo. A presença da viola de mão ou, simplesmente, viola, foi amplamente documentada nos ambientes jesuíticos brasileiros desde meados do século XVI, relacionada à catequese indígena. Apesar de suas transformações ao longo dos séculos, os instrumentos reconhecidos pelo nome viola difundiram-se bastante a partir do início do século XIX, principalmente devido à sua função no acompanhamento de modinhas e lundus. No século XVIII, entretanto, após o declínio da atividade jesuítica e antes da fase das modinhas, os relatos sobre a prática das violas no Brasil são menos freqüentes e as informações sobre sua origem são bem mais raras. Os trabalhos de Anna Maria Kieffer, Gisela Pupo Nogueira e Rogério Budasz, que representam o ponto de partida para esta comunicação, atestam o fato de que, até o presente, não eram conhecidas informações substanciais sobre a prática e, principalmente, sobre a construção de violas no Brasil durante o século XVIII. Visando levantar algumas questões sobre o assunto, este texto aborda o caso de Domingos Ferreira (1709-1771), um português natural da freguesia de Santa Maria de Aveleda, Arcebispado de Braga, que passou boa parte de sua vida em Vila Rica (Minas Gerais), onde “vivia de seu ofício de violeiro”, ou seja, construindo violas, até seu falecimento. A leitura de seu testamento e de seu inventário comprova que Domingos Ferreira produzia uma grande quantidade de violas e outros cordofones dedilhados, dando-nos uma idéia de que estes circulavam em meados do século XVIII, no Brasil, em uma proporção bem maior do que aquela até agora imaginada. A partir dos trabalhos já publicados sobre o assunto e de outros documentos manuscritos, tentar-se-á estabelecer uma relação entre a produção desses instrumentos e o tipo de uso e de repertório praticado em Minas Gerais no século XVIII. Introdução A atividade musical brasileira e mineira do século XVIII tem sido principalmente investigada no que se refere à música sacra, sendo raros os trabalhos relacionados à prática musical profana, especialmente aquela referente à música instrumental. 1 Recentes pesquisas sobre danças e óperas nesse período começam a demonstrar que o repertório sacro não foi o único que circulou naquela fase, e que ainda há muito a se pesquisar para uma melhor compreensão do panorama musical brasileiro e especialmente mineiro anterior à Independência. Este trabalho explora uma das questões ligadas à prática musical profana mineira, a partir da análise do processo de inventário de Domingos Ferreira, aberto em 7 de outubro de 1771 e encerrado em 22 de novembro de 1777, pertencente ao Arquivo do Museu da