1 ALGUMAS QUESTÕES SOBRE ARTE E IMAGENS NO OCIDENTE MEDIEVAL Maria Cristina Correia Leandro Pereira (UFES) Quem quer que sejas, se pretendes exaltar a glória destas portas, não te maravilhes pelo ouro, nem pelo custo, mas sim pelo trabalho da obra. Resplandece a nobre obra, mas a obra que nobremente resplandece clarifica as mentes, para que se encaminhem pelas luzes para a verdadeira luz, onde Cristo é a verdadeira porta. Como se entra neste mundo, a porta dourada o determina. A mente, ofuscada, se eleva à verdade pelas coisas materiais e, depois de ver essa luz, ressurge da antiga submersão 1 . Abade Suger (c. 1081-1151) Os versos que Suger mandou gravar em letras de bronze dourado nas portas principais da catedral de Saint Denis quando de sua consagração, na melhor tradição da retórica medieval, poderiam ser associados a uma mudança de paradigma estético, como defendia Erwin Panofsky em um artigo já clássico 2 . A importância da luz, explorada habilmente pelos vitrais das catedrais, seria, de fato, um dos pontos chaves para se caracterizar a arte gótica – ou, para usar um termo da época, a arte de França. No entanto, não há que fazer dessa preocupação uma exclusividade do gótico. Bem antes de Suger e da arte de França, o Liber Ordinum, em uso na Igreja visigótica e moçárabe do século V ao XI, por exemplo, já insistia em que Deus é luz, é "lumen indeficiens, unici luminis lumen, fons luminis, lumen auctor luminum" 3 . O bispo hispânico Fortunato, do século VI, afirmava, poeticamente, que quando um peregrino passava a noite junto à igreja em atividade, ele poderia ver que a terra também tem as suas estrelas 4 . Todos, incluindo Suger, beberam das Doutora em História Medieval pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), professora de História da Arte do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (CAR/UFES), coordenadora do Grupo de Pesquisa em Imagens Cristãs (GPIC – CAR/UFES). 1 "Portarum quisquis attollere quaeris honorem / Aurum nec sumptus operis mirare laborem / Nobile claret opus sed opus quod nobile claret / Clarificet mentes ut eant per lumina vera / Ad verum lumen ubi Christus janua vera / Quale sit intus in his determinat aurea porta / Mens hebes ad verum per materialia surgit / Et demersa prius hac visa luce resurgit". SUGER. Liber de rebus in administratione sua gestis, 27. Transcrição: PANOFSKY, Erwin. "O abade Suger de S. Denis". In: _____. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 1979, p. 149-190, p. 174 (tradução nossa). 2 Embora não se refira explicitamente a essa inscrição, mas à obra de Suger com um todo, Panofsky afirma: "Será que Suger percebeu que, ao concentrar artistas 'de todas as partes do reino', inaugurava, na então relativamente deserta Île-de France, aquela grande síntese de todos os estilos regionais franceses que chamamos de gótico? (...)". Idem, p. 188. 3 "Luz inesgotável, luz da única luz, fonte de luz, luz autora de luzes". CORBOZ, André. Haut Moyen Âge. Fribourg: Office du Livre, 1970, p. 88. (tradução nossa). 4 Idem.