1 Kliman: a grande falha do capitalismo Eleutério F. S. Prado Introdução Esta nota busca apresentar resumidamente a explicação dada por Andrew Kliman para a grande crise do capitalismo, a qual se manifestou fortemente a partir de 2007. Ela foi desenvolvida em seu livro A falha da produção capitalista – as causas subjacentes da grande recessão, publicado em 2012. Nessa obra, com base em uma investigação estatística extremamente árdua dos dados da economia norte-americana, ele sustenta a tese polêmica segundo a qual todo o desenvolvimento da crise, assim como as suas condições antecedentes, pode ser explicado estritamente com base nas concepções de Marx sobre as leis que determinam o evolver do capitalismo. A crise é mundial, mas ele se concentra na economia norte-americana justificando essa opção restritiva afirmando que a principal economia do capitalismo contemporâneo foi também o epicentro da crise. Kliman desenvolve a sua tese no interior da tradição marxista norte-americana encabeçada por Raya Dunayevskaya, a qual pode ser conhecida por meio do livro Marxism and Freedom (2000) e em ferrenha contraposição à tradição alternativa originada nos escritos de Paul Baran e Paul Sweezy, a qual se encontra desenvolvida principalmente na obra Capitalismo Monopolista (1966). Na linha de pensamento adotada por Kliman, a crise econômica é explicada principalmente a partir da lei tendencial da queda dos lucros, a qual se encontra exposta, como bem se sabe, nos capítulos XIII a XV do terceiro volume de O Capital (Marx, 1983). Já a corrente de pensamento rejeitada por ele explica a crise a partir do problema da realização do valor, o qual surge na apresentação do circuito do capital em contraposição ao circuito da mercadoria, tema que é certamente central na obra econômica de Marx (ver Foster, 2008). O próprio Kliman, na introdução de seu livro, apresenta esquematicamente a sua visão da opinião corrente na esquerda norte-americana sobre a natureza da crise do final dos anos 2000 e da grande recessão que a acompanha. Segundo ele, a apreciação mais bem difundida nesse meio intelectual está dominada pela crença de que a crise deve ser examinada tendo por foco a substituição da política econômica keynesiana pela neoliberal, ocorrida nos anos 70. Nesse período, ocorre uma complexa transformação histórica que, como sempre, está sujeita a várias interpretações concorrentes. A opinião difundida na esquerda acentua, nessa transformação, a mudança drástica na correlação de forças entre as classes sociais. Por meio de várias reestruturações do sistema econômico, segundo ela, os capitalistas passaram a abocanhar uma parcela maior da renda gerada pelos trabalhadores, em detrimento destes últimos. Por causa dessa ênfase nos efeitos econômicos dessa ofensiva da classe dominante, travada a partir do plano político, ela enxerga a crise como um evento adverso, talvez como um obstáculo, de qualquer modo como um produto do neoliberalismo. Contrariando essa posição – e concebendo o keynesianismo e o neoliberalismo como respostas políticas a desafios históricos postos à sobrevivência do sistema como um todo –, Kliman, em sua compreensão teórica, vai focar a lógica interna de reprodução do próprio complexo econômico e, desse modo, vai tratá-la como crise do capitalismo enquanto tal. Para ele, a experiência histórica da Grande Crise de 29 mudou de modo permanente o comportamento dos agentes do Estado no enfrentamento das