Raízes de um pensamento autoritário: possibilidades metodológicas em um estudo de Golbery do Couto e Silva Luiz Felipe Cezar Mundim 1 Identificar, caracterizar e contextualizar o pensamento de Golbery é uma tarefa que já foi realizada satisfatoriamente. As referências são os vários trabalhos que podem ser encontrados em autores na história política – onde, de forma geral, este intelectual é observado a partir da matriz de suas idéias (reconhecida na Doutrina de Segurança Nacional - DSN), e da sua atuação conspiratória e política, antes e durante o regime militar – e em alguns poucos na história intelectual – onde os estudos se voltam à análise do cerne ideológico a que este autor se insere e a incursões interpretativas pelos seus textos 2 . Não são esses os objetivos deste trabalho. Reconhecidas todas essas contribuições, a motivação desta breve apresentação – que chamo de exercício metodológico – é, ao fazer emergir a linha de pensamento em que Golbery se fixa e fundamenta suas idéias, inseri-lo num campo material – institucional – específico, que dá a forma prática para sua teoria. Não se trata, tampouco, de extrair do texto de Golbery os autores que o influenciam, ligando mecanicamente suas idéias a possíveis e determinadas origens 3 . O que está em questão é extrair, das composições desses autores mesmo – reconhecidos os limites naturais deste tipo de abordagem –, o pensamento ulterior que possibilitou a fundamentação e legitimação das idéias de Golbery. É, portanto, definir os processos de apropriação simbólica num campo intelectual conservador e autoritário brasileiro específico; perceber, a partir disso, na própria produção ideológica as maneiras homólogas aos interesses de classe. Esta é uma posição a se firmar neste estudo porque o que tenho em vista é a particularidade do lugar em que é produzido o projeto teórico de Golbery. O objetivo é fornecer os elementos necessários para apontar, nesta relação (instituição-intelectual), a composição de um sistema simbólico que se pretende hegemônico ao levar adiante a autoconsciência de uma missão de salvação nacional. ANPUH – XXIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Londrina, 2005. 1