A DESTERRITORIALIZAÇÃO NA OBRA DE DELEUZE E GUATTARI ROGÉRIO HAESBAERT E GLAUCO BRUCE 1 Departamento de Geografia Universidade Federal Fluminense (...) construímos um conceito de que gosto muito, o de desterritorialização. (...) precisamos às vezes inventar uma palavra bárbara para dar conta de uma noção com pretensão nova. A noção com pretensão nova é que não há território sem um vetor de saída do território, e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte. (Gilles Deleuze, em entrevista em vídeo) É necessário reconhecer a grande importância da obra de Guies Deleuze e Félix Guattari para a Geografia, principalmente através do conceito de desterritorialização. Não são poucos, contudo, os mal-entendidos na tradução dos sentidos em que a expressão é utilizada. O objetivo primeiro deste artigo é elucidar um pouco mais a concepção de des-re-territorialização tal como se apresenta na obra desses autores, cientes do grande potencial que ela nos reserva para explorações no campo da Geografia. A emergência da temática da desterritorialização como centro de nossas preocupações teóricas na última década (HAESBAERT, 1994, 1997 e 2001) acabou direcionando-nos, de uma maneira ou de outra, para um novo olhar sobre a obra de Deleuze e Guattari, espécie de “pais” desta terminologia, introduzida principalmente através da obra O Anti-Édipo (publicado originalmente em 1972) e desdobrada sobretudo em Mil Platôs (1980) e O que é a filosofia? (1991). Dessa forma, quando discutimos a desterritorialização, para além do debate filosófico estamos, direta ou indiretamente, balizados por problemas e questões concretas. Indagarmo-nos sobre qual o problema que queremos resolver é o primeiro passo para a construção dos conceitos e do próprio pensamento. Por trás de todo o debate teórico, aqui privilegiado, está a crescente difusão das questões ligadas ao que vulgarmente se denomina “o fim dos territórios” (BADIE, 1995) ou, mais amplamente, o enfraquecimento da dimensão espacial na vida social. Na verdade o que estamos propondo é questionar a unilateralidade que geralmente envolve o discurso sobre a desterritorialização, como se o mundo estivesse, definitivamente, “desterritorializando-se”. A partir da proposta de Deleuze e Guattari, queremos pensar a territorialização e a desterritorialização como processos concomitantes, fundamentais para compreender as práticas humanas. O problema concreto que se coloca é o de como se dá a construção e a destruição ou abandono dos territórios humanos, quais são os seus componentes, seus agenciamentos, suas intensidades — para utilizar a linguagem de Deleuze e Guattari. Mas nosso propósito específico, aqui, é menos ambicioso: trata-se de esclarecer o que estes autores 1 Este trabalho foi desenvolvido no âmbito das pesquisas do NUREG (Núcleo de Estudos sobre Regionalização e Globalização), coordenado por Rogério Haesbaert. Glauco Bruce é aluno do curso de Geografia da UFF. Os autores agradecem a colaboração e leitura crítica do professor Auterives Maciel, cujas reflexões foram muito importantes para este trabalho.