Os comunistas portugueses na luta contra o Estado Novo: um retrato através das suas memórias Publicado em História & Luta de Classes n.º 15, Março de 2013 ISSN 1808-091X António Simões do Paço 1 Introdução O objetivo deste trabalho é contribuir para estabelecer uma caracterização dos militantes comunistas e outros que se enfrentaram com o regime do Estado Novo português e a Ditadura Militar que imediatamente o precedeu (1926-1974), que duraram o suficiente para ocupar e marcar grande parte das suas vidas. Quem eram, como se tornaram militantes, em quem se tornaram? As memórias analisadas são de indivíduos que, pelo menos durante um período, militaram no Partido Comunista Português (PCP) (vinte e um), incluindo os que deste se afastaram ou foram afastados e escreveram as suas memórias já posteriormente a este facto (Cândida Ventura, Edmundo Pedro, Francisco Ferreira, Francisco Martins Rodrigues, Silva Marques, Mário Soares, Raimundo Narciso, Rui Perdigão, Zita Seabra). Fundado em 1921, o Partido Comunista Português (PCP) teve uma existência relativamente apagada até aos anos 40, onde, após uma ‘reorganização’ que foi quase uma refundação, cresceu durante os anos finais da II Guerra Mundial e no imediato pós- guerra até se tornar, por altura do seu IV Congresso (1946), uma organização de vanguarda com alguma influência de massas, contando, entre militantes e simpatizantes, uns 9000 membros 2 . Seguiram-se os difíceis anos 50, em que o partido, acossado pela polícia, retrocederia acentuadamente. Nunca mais, até ao 25 de Abril de 1974, atingiria a força militante e a influência que teve no imediato pós-guerra. Porém, manteve-se, mesmo após o surgimento, em meados dos anos 60, das correntes maoistas, como de longe a principal corrente organizada da oposição ao Estado Novo. Dos elementos que poderiam ser usados para esta análise escolhemos por hierarquia de prioridades e limitação da dimensão do estudo o papel da educação na militância política, o trabalho, a clandestinidade, a repressão e os indícios daquilo a que chamamos “a face sombria de um escol de gente corajosa”: o extremo sectarismo dos comunistas em relação aos seus camaradas que se afastam ou são afastados e aos que se reclamam do mesmo campo social e político (as classes trabalhadoras e as suas organizações), que me parecia contrastar com a atitude “construtiva” em relação a outros setores da oposição ao salazarismo. A reflexão historiográfica em Portugal sobre a literatura memorialista é escassa, quase inexistente. O mesmo se pode dizer do próprio uso das memórias como fonte historiográfica. Uma exceção é António Ventura, que na Apresentação da sua antologia Memórias da Resistência 3 constata esse facto, elenca o número relativamente vasto de livros de memórias, biografias, autobiografias e diários disponíveis e, apontando as suas 1 Investigador do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 2 Cunhal, Álvaro, Obras Escolhidas. I. 1935-1947, Lisboa, Edições Avante!, 2007, p. 403. 3 Ventura, António, Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 2001, pp. 5-32.