Ciênc. let., Porto Alegre, n. 44, p. 215-236, jul./dez. 2008 215 Disponível em: <http://www.fapa.com.br/cienciaseletras> Influências externas, circulação de referenciais e a constituição do movimento negro contemporâneo no Brasil: idas e vindas no “Atlântico negro” * Amilcar Araujo Pereira ** Resumo O objetivo deste artigo é investigar a importância da circulação de referenciais para a luta contra o racismo, principalmente no Brasil, mas também nos Estados Unidos. Nesse sentido, além de bibliografia, foram utilizados basicamente dois conjuntos de fontes históricas: o arquivo do jornal Chicago Defender, o mais importante jornal da imprensa negra norte-americana, fundado em Chicago em 1905, e o acervo de entrevistas de história oral com lideranças do movimento negro brasileiro, do projeto “História do movimento negro no Brasil”, desenvolvido por Verena Alberti e Amilcar Araujo Pereira no CPDOC/ FGV entre 2003 e 2007. Palavras-chave: Movimento negro. Brasil. Estados Unidos. História oral. No início do século XXI, mais precisamente a partir do ano de 2001, o movimento negro brasileiro conquistou grande visibilidade na sociedade brasileira, muito em função da implementação das primeiras políticas públicas de ação afirmativa para negros e das polêmicas criadas em torno desse fato. 1 Fala-se bastante, atualmente, em diversos meios de comunicação, que o movimento negro brasileiro é uma espécie de cópia, em menores proporções, do movimento negro norte-americano pelos direitos civis. Um dos objetivos de minha pesquisa de doutorado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), é compreender as influências e relações, as * A primeira versão deste artigo foi apresentada na IX Conferência da Brazilian Studies Association, Brasa, realizada na Tulane University, em New Orleans, nos Estados Unidos, entre os dias 27 e 29 de março de 2008. ** Doutorando em História na Universidade Federal Fluminense (UFF), bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) , durante o ano de 2008, Visiting Scholar em estágio doutoral na Johns Hopkins University, em Baltimore, Estados Unidos. Agradeço a Verena Alberti, com quem organizei o livro Histórias do movimento negro no Brasil: depoimentos ao CPDOC (Rio de Janeiro: Pallas; CPDOC/FGV, 2007), pela leitura cuidadosa, por todo o apoio e pelas inestimáveis contribuições. Agradeço também a Amauri Mendes Pereira e ao professor Michael Hanchard, meu co-orientador, no estágio doutoral, pelas críticas e sugestões fundamentais. amílcar.pereira@fgv.br 1 Em 4 de setembro de 2001, logo após a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, realizada em Durban, na África do Sul, que contou com uma grande delegação do movimento negro brasileiro, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), cujo titular era Raul Jungmann, iniciou a implementação de um programa de ações afirmativas que previa cota mínima de 20% para afrodescendentes no acesso a cargos de direção, bem como na organização de concursos públicos e na contratação de trabalhadores terceirizados. Em 9 de novembro daquele ano, foi sancionada, no estado do Rio de Janeiro, a Lei nº 3.708, de