CULTURAS EPISTÊMICAS E SUAS MAQUINARIAS DE CONHECIMENTO: Construção do Conhecimento em uma Comunidade voltada à Pesquisa e Desenvolvimento em um Instituto de Ciência e Tecnologia no Brasil Ana Lúcia Lage 1 Introdução A noção de culturas epistêmicas, cunhada por Karin Knorr-Cetina (1999), refere-se a mecanismos e arranjos, processos e sistemas, estratégias e políticas subjacentes às práticas que produzem e garantem a manutenção do conhecimento epistêmico em diferentes domínios (científico, acadêmico, tecnológico e outros). Segundo a autora, maquinarias contemporâneas de conhecimento marcam notadamente a transição das sociedades contemporâneas para sociedades do conhecimento, sociedades que tradicionalmente enfatizam verdades científicas, aplicações tecnológicas, propriedade intelectual, e cujo funcionamento se dá utilizando processos e sistemas especializados que são colocados em evidência pela Ciência - instituição epistêmica por excelência -, mas que estão estruturados em todas as áreas da vida social. Isto coloca as seguintes questões para o cientista social (e para o cientista reflexivo sobre a sua própria prática): como estes processos e sistemas funcionam? Que princípios norteiam as suas orientações cognitivas e procedurais? A noção de culturas epistêmicas traz implícita uma mudança de paradigma para olhar o conhecimento como prática social, dentro de estruturas, processos e ambientes específicos, orientados à produção epistêmica. Neste sentido, elucidar as maquinarias de conhecimento contemporâneas significa “explorar aspectos epistêmicos, tais como, o significado atribuído ao empírico, as relações com objetos construídas na prática e a construção e adaptação de arranjos sociais” (p. 1) 2 , que emergem em áreas de caráter epistêmico. Implica em enfocar as dimensões técnicas, sociais e simbólicas de diferenciados e intrincados sistemas especialistas e elucidar – não a construção de conhecimento em si, mas a construção das maquinarias de construção de conhecimento. 1 Engenheira Eletricista pela UFBA, Especialista em Telecomunicações pela Universidade PARIS VII, Mestre em Redes de Computadores pela UNIFACS, Doutoranda em Difusão do Conhecimento pelo programa DMMDC/UFBA, pesquisadora da REDPECT – Rede Cooperativa de Pesquisa e Intervenção Sobre (In)Formação Currículo e Trabalho – na linha CAOS – Conhecimento: Análise Cognitiva, Ontologia e Socialização. 2 “[...] explore epistemic features such us the meaning of the empirical, the enactment of object relations, the construction and fashioning of social arrangements” (KNORR CETINA, 1999, p. 1) (tradução e grifo nossos e de Teresinha Fróes Burnham).