44 TÓPICOS EMERGENTES E DESAFIOS METODOLÓGICOS EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO: CASOS, EXPERIÊNCIAS E PROPOSIÇÕES - VOLUME II FUNDAMENTOS PARA A CONSTRUÇÃO DE MODELOS CONCEITUAIS EM GESTÃO DA PRODUÇÃO Historicamente, o processo de modelagem na área de gestão de produção baseia-se fortemente na quantificação de variáveis. Essa abordagem tende a negligenciar o efeito do comportamento humano no processo produtivo, aspecto de importância indiscutível, mas de difícil quantificação. Consequentemente, os modelos costumam falhar, quando aplicados à solução de problemas ou ao processo de tomada de decisão. Nesse contexto, justifica-se uma reavaliação crítica do paradigma teórico-metodológico, em busca de alternativas que podem melhorar a eficácia dos modelos de gestão da produção e os resultados da utilização dos conhecimentos produzidos. Apresentam-se, a seguir, um método e uma estratégia para a construção de modelos que contemplem esses aspectos, bem como se analisa sua utilização em pesquisas qualitativas. Um arcabouço teórico para solução Em algumas áreas, a Engenharia de Produção beneficia-se dos conhecimentos das Ciências Sociais Aplicadas; em outras, dos das ciências ditas “Exatas”. É lícito esperar vantagens a partir de um olhar retrospectivo sobre essas duas vertentes. A epistemologia de Taketani-Osada (OSADA, 1972), proposta como uma “filosofia aplicada” e útil para promover o avanço das ciências, destaca que uma quantificação rigo- rosa e consolidada somente se estabelece depois de se ter uma base conceitual clara e sem ambiguidades (embora ambas possam se desenvolver simultaneamente). O caminho para tanto passa pela reflexão teórica e pela pesquisa qualitativa. Deve-se iniciar documentan- do experiências vividas e adquiridas, o que gera as descrições não classificadas. Quando essas se acumulam em quantidade significativa, torna-se viável, mediante análise, abstrair os conceitos pertinentes ao objeto de estudo e, com base neles, classificar ou organizar as descrições. Essa é a parte da epistemologia relevante para este tópico. O capítulo dedicado à Gestão do Conhecimento apresenta, em seu apêndice, uma descrição mais detalhada desta epistemologia. Veja-se que a quantificação não foi mencionada no parágrafo anterior. De fato, para uma ciência nova, esta somente surge depois do estabelecimento dos conceitos, e apenas para aqueles que satisfizerem requisitos como relevância, gradação de intensidade, univocidade, abrangência e “transferabilidade” (TRZESNIAK, 1997) e para os quais for possível criar padrões, escalas e instrumentos de medição. Ciências consagradas, como a física, examinam fenômenos novos em seu domínio usando conceitos já consolidados há dezenas, até cente- nas de anos (como massa, energia, corrente elétrica). Ciências em construção não têm essa vantagem, precisam investir na descoberta, no refinamento e no rigor de seus referenciais Muniz Júnior, Jorge; Batista Júnior, Edgard Dias; Trzesniak, Piotr; Marins, Fernando A. S. (2009): Fundamentos para a construção de modelos conceituais em gestão da produção, in: Oliveira, V. F.; Cavenagui, V.; Másculo, F. S. (org): Tópicos emergentes e desafios metodológicos em engenharia de produção: casos, experiências e proposições (p. 44-55). Rio de Janeiro/RJ: Editora da Associação Brasileira de Engenharia de Produção (ISBN 978-85-88478-38-1).