Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 1 NOS INTERSTÍCIOS DA MEMÓRIA E DO ESQUECIMENTO: PAUL RICOEUR E A ESCRITA DA HISTÓRIA JOACHIN DE MELO AZEVEDO S. NETO * Resumo: A proposta deste texto é elaborar uma discussão, dentro dos limites impostos pela formatação de um artigo ensaístico, sobre as principais contribuições do pensamento do filósofo francês Paul Ricoeur em relação a questões como a dimensão ética que deve permear a escrita da História, bem como outras, de ordem metodológica, como os procedimentos adotados pelo historiador diante da necessidade de interpretação das fontes e testemunhos de uma época. Diante das tensões contemporâneas verificadas no campo da Historiografia entre os adeptos do ceticismo, dito pós-moderno, e aqueles que reivindicam um regime de verossimilhança em relação ao passado representado pelo historiador, podemos perceber como uma re-aproximação entre História e Filosofia, feita na esteira do pensamento de Ricoeur, pode oferecer soluções variadas para os diversos impasses oriundos da indisposição entre narrativa e tempo, estilo e História, arte e vida realizada pelos adeptos do nominalismo linguístico. Palavras-chave: Memória, esquecimento, Historiografia, Paul Ricoeur. O principal foco deste texto é discutir como as incursões feitas pelo filósofo da linguagem Paul Ricoeur ao campo da História fornece um novo fôlego para os debates sobre ética, veracidade e narrativa historiográfica. No campo da Historiografia contemporânea, existe um consenso, entre vários pesquisadores do tema, de que a quase inexistência de reflexões teóricas sobre a escrita de História, durante o século XX, é uma das causas que favoreceram a disseminação de teses que reduziram o ofício do historiador, pautado em uma série de procedimentos qualitativos e quantitativos de pesquisa, a uma atividade meramente retórica, semelhante à praticada pelos sofistas na Grécia Antiga. 1 Se durante o final do século XIX, houve um esforço descomedido para que o diálogo entre filosofia e história fosse silenciado – na Alemanha, por meio de Ranke e * Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Doutorando em História Cultural (Bolsista pela CAPES). Contato: joaquimmelo@msn.com 1 Em uma obra recente, Luiz Costa Lima, renomado estudioso da literatura, ao perguntar-se sobre a escrita da história, chama a atenção para fato de que na época do surgimento do primeiro hístor – Heródoto – uma fronteira bastante nítida já estava traçada em relação aos poetas épicos: se estes narravam os fatos por meio da inspiração das musas, já a escrita da história “surge com a premissa de registro da verdade” (LIMA, 2006 : 88). De forma cautelosa, Costa Lima adverte que a concepção de verdade predominante era aquela gerada a partir do ponto de vista grego.