OS CHINESES NAS ILHAS MOLUCAS: DA PRIORIDADE NO COMÉRCIO DE LONGA DISTÂNCIA À FIXAÇÃO DE UMA COMUNIDADE RESIDENTE MANUEL LOBATO Não se afigura uma tarefa fácil tratar das relações dos Chineses com as ilhas Molucas 1 . A principal dificuldade consiste no facto de as referências a este assunto serem escassas, esparsas e de pouca substância informativa. Não sendo o autor destas linhas um especialista em história da China, nem sequer da presença portuguesa no Extremo Oriente, teria sido impossível empreender uma tarefa desta natureza sem o recurso constante, especial- mente na primeira parte deste texto, aos trabalhos de Roderich Ptak 2 . O Prof. Ptak interessou-se pelas Molucas no quadro da intersecção de linhas de investigação diversas sobre temáticas igualmente diferentes, como os estudos chineses e, em particular, a diaspora chinesa; os estudos sobre os produtos de luxo, objecto de comércio a longa distância, e das rotas maríti- mas utilizadas nesse comércio; por fim, os estudos sobre os Portugueses na Ásia, em particular nas suas relações com a China 3 . O interesse pelas ilhas Molucas demonstrado pêlos Chineses ficou a dever-se à existência de cravo-da-índia, cravinho ou cravo-cabecinha, nessas ilhas, de que elas eram o único produtor mundial e, por isso mesmo, foram designadas por Ilhas das Especiarias. Sem correr o risco de cair em simplifi- cações, pode afirmar-se com segurança que as Molucas foram «colocadas no mapa» pelo comércio do cravo, sem o qual teriam permanecido na obs- curidade, como aconteceu com muitas outras ilhas e pequenos arquipélagos da Insulíndia. O que acabou de ser dito para as Molucas pode dizer-se tam- bém a respeito do pequeno arquipélago de Banda, donde provinham a noz- -moscada e a maça, ou mesmo a respeito de Timor, donde provinha o aromático sândalo, não obstante a dimensão comparativamente muito maior desta última ilha. O nosso conhecimento sobre a história do cravo, enquanto género botânico usado como especiaria, tem-se alargado nos últimos anos. No Médio Oriente, está confirmado o seu uso desde o início do II milénio a. C., 147