Como citar este artigo: IGAYARA-SOUZA, Susana & PAZ, Ana Luíza F. Trajetórias femininas memoráveis do século XX: uma perspetiva comparada do ensino especializado de música Portugal-Brasil. In: Mogarro, M.J. & Cunha, M.T.S. (orgs.) (2012). Rituais, Espaços & Patrimónios Escolares. IX Congresso Luso Brasileiro de História da Educação (Atas). Lisboa: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. ISBN 978- 989-96999-6-0 TRAJETÓRIAS FEMININAS MEMORÁVEIS DO SÉCULO XX: UMA PERSPETIVA COMPARADA DO ENSINO ESPECIALIZADO DE MÚSICA PORTUGAL-BRASIL Susana Cecília Igayara-Souza (Universidade de São Paulo) susanaiga@gmail.com; susanaiga@usp.br Ana Luísa Fernandes Paz (Universidade de Lisboa) apaz@ie.ul.pt Palavras-chave: ensino especializado de música; biografia; género feminino Introdução e objetivos O presente artigo inaugura um estudo de história de educação comparada, possibilitado pela confluência de interesses e experiência de pesquisa das suas autoras. Centradas, respetivamente, nas realidades nacionais de Portugal e do Brasil, propomos um duplo movimento que recupera as fontes e as questiona na sua própria constituição. Aqui se inicia um projeto que visa estabelecer uma biografia coletiva, ou prosopografia, de musicistas portuguesas e brasileiras. Tendo como problema genérico a forte presença artística e educacional de elementos do sexo feminino durante o longo século XX no campo musical, o nosso intuito é testar aqui uma grelha de leitura analítica, que sirva de suporte a uma recolha mais lata e aprofundada. O nosso interesse por inscrever esta prosopografia num âmbito comparativo vem ao encontro dos trabalhos de Peter Burke, que defendeu este recurso da história cultural como ferramenta válida e rigorosa. Ao contrastar as nossas duas realidades culturais a partir de categorias bem definidas e equivalentes, imaginamos criar um instrumento que nos permita (re)escrever a história da educação musical a partir de um novo olhar sobre as singularidades nacionais (Burke, 1992: 9-10). Os seis estudos de caso sobre a vida e obra de Antonietta de Sousa (1893-1976), Iza de Queiroz Santos (1890-1965), Magdalena Tagliaferro (1894-1986), Guilhermina Suggia (1885-1950), Helena Sá e Costa (1913-2006), Maria Antonieta de Lima Cruz (1901-1957), respetivamente, três mulheres brasileiras e três portuguesas, representam o primeiro ensaio deste esforço conjunto. Ao comparar as duas realidades, aparecem num mesmo plano de evidência quer as peculiaridades nacionais, quer a estratégia comum de salvaguarda da memória. Por memória entendemos aqui textos escritos, tanto (i) na primeira pessoa, vindos do punho destas mulheres em documentos específicos (autobiografias, cartas, diários) ou em escritos onde só um olhar atento descortinaria marcas pessoais (manuais escolares, relatórios), como (ii) por via a produção de terceiros, também eles com estatutos diversos (biógrafos, relatos de amigos, crítica musical) e, não raro, fazendo eles mesmos o trabalho de resgate. Tendo como chave de leitura a procura das trajetórias educativas e artísticas de seis mulheres, o objetivo mais específico deste texto é testar a grelha analítica que construímos para a leitura das fontes, e onde acabou por emergir toda uma gramática da função-autor (Foucault, 1992). No nosso entender, autoria não se confina à escrita, embora nela se encontre uma objetivação muito particular, que mantém numa relação específica o escritor e o par individualidade-personalidade. Autoria surge aqui como