MONIÉ, Frédéric (2012): Petróleo, desenvolvimento e dinâmicas espaciais na África subsaariana In: MONIÉ, Frédéric, BINSZTOK, Jacob (org.) (2012): Geografia e geopolítica do petróleo. Rio de Janeiro: Mauad X, p.201-236. ISBN: 978-85-7478-462-5 O novo “Grande Jogo” e a geopolítica dos oleodutos no Mar Cáspio Frédéric Monié Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Pesquisador do CNPq fmonie@uol.com.br Introdução Ao longo do século XIX, o espaço centro-asiático foi o epicentro de tensões entre Impérios russo e britânico que o escritor Rudyard Kipling descreveu como um “Grande Jogo” envolvendo chancelarias, redes de espiões, lideranças tribais locais, exploradores e aventureiros. As rivalidades geopolíticas eram então alimentadas pela expansão russa em direção aos “mares quentes” que ameaçava o domínio de Londres sobre a Ásia do sul e os oceanos, num contexto marcado pelo desenvolvimento da indústria petrolífera na Bacia do Mar Cáspio. Esta “guerra fria do século XIX” inspirou os primeiros teóricos da Geopolítica para os quais o controle sobre as massas continentais ricas em recursos humanos e naturais da Eurásia (heartland) constituía o caminho privilegiado para a conquista da hegemonia sobre o sistema mundial. A assinatura do tratado anglo-russo de 1907, que criou o Afeganistão como Estado- tampão autônomo, abriu um período de relativa estabilidade neste antigo cruzamento de civilizações e eixos de circulação de longo alcance espacial. Mas no final do século XX a desintegração da União soviética acirrou novamente as tensões nesta região localizada entre Irã, Rússia, subcontinente indiano e China. Na ordem global pós-guerra fria, o espaço centro-asiático adquiriu imediatamente grande relevância geoestratégica para os governos norte-americano, russo, chinês e indiano que desenharam um jogo regional de alianças e contra-alianças particularmente complexo e evolutivo. Além das variáveis que compõem habitualmente o cenário das lutas de influência entre Estados com pretensões hegemônicas sobre áreas consideradas estratégicas para a manutenção do equilíbrio geopolítico mundial, as tensões atuais alimentam-se também de fenômenos globais como a corrida aos recursos naturais e a “guerra global ao terrorismo” cujas implicações em escala regional reestruturam os vetores de acesso à potência. A complexidade das estratégias das diversas potências para a região esboça um “novo Grande Jogo” estruturado concomitantemente por lógicas de competição e cooperação. Por isso, os instrumentos analíticos oferecidos pela geopolítica clássica não