REIS, Raul. The Impact of Television Viewing in the Brazilian Amazon. 1 Human Organization, v. 57, n. 3, p. 300-306, 1998. Trad. Waldemar Ferreira Netto, em 2013. O impacto da televisão na Amazônia brasileira Raul REIS 1 Este artigo relata os resultados de um estudo etnográfico sobre o impacto da televisão na Amazônia brasileira. No outono de 1996, o pesquisador passou três meses em trabalho de campo na comunidade de São João de Pirabas. A narrativa procura responder às questões: qual foi o papel na televisão na maneira como as comunidades rurais brasileiras constroem suas próprias interpretações da realidade. E quais mudanças culturais (se houver) podem ser atribuídas às presença invasiva e sistemática da televisão? Palavras-chave: etnografia, televisão, media; Brasil, Amazônia No filme "Bye Bye Brasil", de Cacá Diegues, de 1979, uma trupe de circo que faz uma turnê no interior do Brasil confronta-se com a imagem de um país que se transforma rapidamente. Seus truques de circo, tal como fazer nevar num dia de verão, não conseguem competir com a artimanha trazida via satélite pelo onipresente aparelho de TV. Numa cena bastante simbólica, o grupo se dá conta de que eles perderam a plateia de uma pequena cidade para seu rival eletrônico: hipnotizados pelo brilho de uma tela luminosa, todos da cidade estão reunidos em volta de um aparelho de TV comunitário para assistir às novelas. Alguns anos depois, verifiquei que, longe de ser puramente simbólica, a cena descrita no filme era muito real: habitantes de pequenas cidades no Brasil ainda se reúnem em torno de aparelhos de TV comunitários para compartilhar um ritual eletrônico. Mais do que isso, algumas vilas remotas na selva amazônica ainda lutam contra a falta de eletricidade e contra a falta de antenas para receber e transmitir os sinais das emissoras. Por outro lado, áreas urbanas desfrutam de tecnologias de comunicação comparáveis às que estão em uso na maior parte do mundo industrializado. No Brasil, passado, presente e futuro combinam-se para produzir uma diversidade única de audiências dos meios de comunicação e de seus usos. Como fossem três países dentro da mesma fronteira geográfica, essas diversas comunidades urbanas e rurais têm muitas características em comum (compartilham a língua, a nacionalidades e alguns valores sociais e culturais), da mesma maneira que têm outros conjuntos de características que as separam. A pesquis resumida neste artigo empregou metodologia etnográfica para investigar como os residentes de São João de Pirabas, uma pequena comunidade na Amazônia Brasileira lidou com a televisão no seu dia a dia. No outono de 1996, estive durante três meses fazendo pesquisa de campo nessa comunidade. Nesse tempo, entrevistei diversos residentes do local, assisti à televisão junto de três famílias e fiz diversas observações sobre a vida e o "assitir televisão", que deram base para a descrição etnográfica que segue. As próximas seções 1 Raul Reis é Leitor em Comunicação Humana na Universidade Estadual da Califórnia, em Monterey Bay. A pesquisa relatada neste artigo foi parcialmente financiada pela CAPES, uma instituição do Ministério da Educação do Brasil. Eu desejo expressar minha gratidão a Patrick Croson, por ler e revisar o manuscrito bem como por seu apoio durante este projeto de pesquisa. Eu também gostaria de agradecer ao Dr. Carl Bybee, meu orientador de doutoraddo na Universidade de Oregon; e aos residentes de São João de Pirabas, que me fizeram sentir parte de tudo isso.