LUGAR COMUM Nº25-26, pp. 291- Lutas operárias em São Paulo e no ABC nos anos 70 Jean Tible Os anos 1970 representam para o Brasil um período bastante particular. Trata-se do momento em que “novos personagens entraram em cena”, título de um dos relatos mais conhecidos dos movimentos de resistência daquela década (Sader, 1988). Nosso objetivo, neste artigo, é o de narrar (e interpretar) as lutas operárias nos anos 70 na Grande São Paulo, buscando enfatizar as próprias práti- cas dos trabalhadores e suas formas de luta. Esta década marca uma novidade na história brasileira: trabalhadores em movimento e em grande número, criando suas práticas de luta num processo de autoconstrução. Neste contexto, como destaca Marco Aurélio Garcia (1982), “foi a prática da luta social que levou os trabalhadores a avanços inigualáveis em termos de consciência e organização”. Assim, “inverteu-se a expectativa de que um dia a teoria chegasse à classe operária, para melhor guiá-la: foi a classe que chegou à teoria”. Contextos Econômico, Político A partir dos anos 30, com a industrialização do Brasil, São Paulo vai se tornando, em detrimento do Rio de Janeiro, o principal pólo econômico do país e da América Latina, passando a produzir tecidos, sapatos, móveis, materiais de construção, peças de locomotiva e material ferroviário. Ao mesmo tempo, com uma crescente intervenção do Estado na economia, são criadas várias estatais da indústria pesada, tais como a Companhia Vale do Rio Doce, Petrobrás e Compa- nhia Siderúrgica Nacional. Ocorre uma progressiva diversificação e indústria de bens de capital, tais como máquinas, tratores, geradores. Nos anos 50 tem início a indústria de autopeças, a partir da implantação das indústrias automotivas, baseada no tripé desenvolvimentista do governo JK: Estado, empresas nacionais e capital internacional. Esta década assinala uma forte mudança na classe operária, que cresce numericamente e se diversifica, ao mesmo 309