O olhar voraz da câmera-personagem no filme de Samuel Beckett Gabriela Borges * Índice 1 Apresentação 1 2 A produção 2 3 A agonia da percepção 3 4 A voracidade da câmera-olho 7 5 Bibliografia 9 Resumo Em 1964, o dramaturgo Samuel Beckett ro- teirizou o seu único filme, que foi dirigido por Alan Schneider, cujo título é Film. Film é baseado no princípio Esse est percipi do filó- sofo irlandês Berkeley e conta com um per- sonagem dividido em dois: O, o objeto re- presentado por Buster Keaton e E, a própria câmera. Este artigo analisa a relação que o filme estabelece entre o sujeito e o objeto do olhar e o meio cinematográfico. 1 Apresentação O dramaturgo Samuel Beckett possui uma vasta produção audiovisual que ainda é pouco conhecida no Brasil. Entre os anos cinqüenta e oitenta o autor escreveu e pro- duziu peças de rádio e televisão para a rede * Universidade Mackenzie/Faculdade Faap. CA- PES/MEC. Este artigo foi publicado na Revista Olhar da UFSC, São Carlos, Ano 4, N˚ 8, 2˚ semestre 2003. britânica BBC, além de dirigir suas criações para a rede pública de televisão alemã Sud- deüstcher Rundfunk. Em 1963, Beckett escreveu um curta- metragem em preto e branco intitulado Film, que tinha sido encomendado pelo Evergreen Theatre de Nova York. O projeto incluía três curtas que seriam escritos por Samuel Beckett, Harold Pinter e Eugéne Ionesco, porém somente Beckett finalizou o seu filme, que foi exibido tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na estréia, o filme não foi muito bem acolhido pela crítica, pois foi considerado obscuro e sem propósito, mas posteriormente acabou sendo reconhecido, principalmente por artistas e intelectuais, e ganhou vários prêmios, como o Prêmio da Crítica do Festival de Veneza (1965), o Prê- mio Especial do Júri do Festival Internacio- nal de Curtas de Tours (1966) e o Prêmio Especial do Festival de Oberhausen (1966). Beckett tinha muito interesse pelo cinema, tanto é que em 1936, antes de emigrar para a França, enviou uma carta para Eisenstein pedindo para ser admitido na Escola Pública de Cinematografia de Moscou (Knowlson, 1996:226). Waugh & Daly (1995:24) afir- mam que a carta de Beckett provavelmente se perdeu, pois aquele foi um período ba- stante confuso para Eisenstein. Ele teve que