O DEBATEDOURO .com | AGOSTO 2013| EDIÇÃO 83|ISSN 1678-6637 20 AGOSTO 2013 ARTIGOS TEORIA A TEORIA NEOLIBERAL NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: O TRIPÉ INSTITUCIONAL E O PAPEL DO ESTADO por Alan Gabriel Camargo* e Cairo Gabriel Borges Junqueira** A disciplina de Relações Internacionais conformou-se como palco de debates desde o seu surgimento no início do século XX. As diversas formulações intelectuais estiveram presentes no nascimento da disciplina e acompanharam seu desenvolvimento na tentativa de fornecer justificativas ou interpretações para o mundo, seus atores e dinâmicas, contribuindo, assim, para a renovação constante dessa ciência. Nesse campo multifacetado, autores como Stephen Walt (1998) identificam a presença de três grandes paradigmas ou tradições de pesquisa Realismo, Liberalismo e Radicalismo os quais, de acordo com os momentos da política internacional, obtiveram maior ou menor adesão dos acadêmicos e tomadores de decisão. Para Jack Snyder (2004), muito além de inspirar e informar os estudos acadêmicos e as decisões políticas, a grande importância da pluralidade teórica em Relações Internacionais reside na capacidade das teorias de contraporem-se umas às outras. Os desgastes temporais ou debilidades explicativas inerentes a cada teoria propiciariam espaços para emersão de debates renovados e contrabalanceados, de modo a impedir a superposição de uma teoria às demais. Em suas palavras, “In lieu of a good theory of change, the most prudent course is to use the insights of each of the three theoretical traditions as a check on the irrational exuberance of the others.” (SNYDER, 2004, p. 61). Não obstante o caráter plural inerente às teorias da disciplina, encontra-se ,nos anos 1970 e 1980, o ponto de inflexão primordial para os novos debates que promoveram o desenvolvimento do Neoliberalismo. Nesse período único para as análises internacionais, acontecimentos como a instalação do neoconservadorismo do ex-presidente estadunidense Ronald Reagan e a renovação das ameaças entre Estados Unidos e União Soviética no contexto da Guerra Fria instigaram o resgate dos pressupostos realistas e abriram caminho para uma nova leitura de mundo que ia de encontro ao pensamento liberal. Para autores do chamado Neorrealismo, em especial Keneth Waltz (1979), os novos acontecimentos apontavam para a reafirmação da lógica de competição pelo poder entre os Estados dentro da estrutura internacional anárquica. Essa perspectiva buscou desenvolver proposições mais positivistas e destinadas à comprovação empírica, o que favoreceu sua apreciação majoritária na época. Destarte, o ambiente de ressurgimento das ameaças nucleares e a maior atenção aos aspectos militares e de poder colocaram em xeque as indicações de um mundo possivelmente interconectado e favorável à estabilidade associativa, como queriam os liberais. Por tal razão, as antigas premissas acerca da interdependência e da cooperação globais, alocadas em segundo plano nesse momento, sofreram releituras com o propósito de adequarem- se às novas tendências da disciplina sem, contudo, perder o núcleo liberal que as destacavam. Os autores desta iniciativa, principalmente Robert Keohane (1984, 1986, 1989) e Joseph Nye (1989, 2005), engajaram-se na afirmação do Neoliberalismo, teoria de maior rigor científico em relação à sua matriz liberal, que se aproximou da observação empírica em contraposição ao idealismo antecessor e compartilhou certos pressupostos já enaltecidos por Keneth Waltz (1979). As duas correntes demonstraram que a ordem mundial é anárquica e postularam o Estado como principal ator, ainda que tenham chegado a conclusões diferenciadas a respeito dos mesmos temas. Tendo como base a explicação exposta e levando em consideração a possibilidade de haver cooperação entre os Estados, o artigo ora apresentado objetiva entender como estes atores são interpretados no universo do Neoliberalismo Institucional das Relações Internacionais . Para tanto, a análise será centralizada no que se denomina nessa pesquisa de “Tripé Institucional”, o qual se baseia nos conceitos de Interdependência Complexa, Instituições e Regimes Internacionais. As três tipologias serão abordadas em momento oportuno. Todavia, é importante destacar que a primeira faz jus às assimetrias e custos advindos da dependência mútua entre os atores (KEOHANE; NYE, 2005); as Instituições conformam arranjos conectados de regras formais ou informais que prescrevem os comportamentos e moldam as expectativas dos Estados (KEOHANE, 1984; 1989); e os Regimes sintetizam o conjunto de princípios, regras, normas e procedimentos de decisão sobre um tema específico da vida internacional (KRASNER, 1982). Em consonância à perspectiva neoliberal, a hipótese deste artigo é a de que os Estados, a partir de convicções próprias e perante o cenário supramencionado, perseguem seus interesses de modo a assumir papeis mais relativos e não predestinados ao conflito, como querem os realistas nas políticas mundiais, que possam indicar posturas cooperativas a partir de suas inspirações racionais. Para isso, inicialmente, o