ROSE, Nikolas. (1988) “Governando a alma: a formação do eu privado”. In: Silva, Tomas Tadeu da (org.). Liberdades reguladas. Petrópolis: Vozes, p.30-45. 3 Governando a alma: a formação do eu privado Nikolas Rose Não creio que se deva considerar o "Estado moderno" como uma entidade que se desenvolveu à parte dos indivíduos, ignorando o que eles são e até mesmo sua existência, mas, ao contrário, como uma estrutura muito elaborada, à qual os indivíduos podem ser integrados, sob uma condição: que se dê à sua individualidade uma nova forma e que se a submeta a um conjunto de mecanismos específicos (Michel Foucault, 1982). ossas vidas íntimas, nossos sentimentos, desejos e aspirações, parecem quintessencialmente pessoais. Vivendo num tempo em que somos rodeados por mensagens sobre problemas públicos que parecem avassaladores (guerra, fome, injustiça, pobreza, doença, terrorismo), nossos estados mentais, nossas experiências subjetivas e nossas relações íntimas aparecem como, talvez, o único lugar onde podemos localizar nossos verdadeiros eus privados. Essa crença parece, sem dúvida, muito confortável. Mas ela é profundamente enganadora. Nossas personalidades, subjetividades e "relacionamentos" não são questões privadas, se isso significa dizer que elas não são objeto de poder. Ao contrário, elas são intensivamente governadas. Talvez elas sempre o tenham sido. Convenções sociais, vigilância comunitária, normas legais, obrigações familiares e religiosas exerceram um intenso poder sobre a alma humana em épocas passadas e em outras culturas. A conduta, a fala e a emoção têm sido examinadas e avaliadas em termos dos estados interiores [p.31] que elas expressam. Também têm-se feito tentativas para alterar a pessoa visível através de uma ação exercida sobre esse invisível mundo interior. Pode parecer que pensamentos, sentimentos e ações constituem o próprio tecido e constituição do mais íntimo eu, mas eles são socialmente organizados e administrados nos mínimos detalhes. A administração do eu contemporâneo é diferente, entretanto, ao menos sob três aspectos. Em primeiro lugar, as capacidades pessoais e subjetivas dos cidadãos têm sido incorporadas aos objetivos e aspirações dos poderes públicos. Isso não constitui apenas um N