Breve ensaio sobre As epifanias em A imitação do amanhecer, de Bruno Tolentino Juliana P. Perez * RESUMO: Este artigo analisa As epifanias, primeira parte do livro A imitação do amanhecer, de Bruno Tolentino. As epifanias são um conjunto de quase duzentos sonetos que narram uma história de amor através das lembranças e relexões de seu protagonista. Com base na interpretação de poemas selecionados, o artigo observa a coniguração da experiência da epifania na obra de Bruno Tolentino. Palavras-chave: Bruno Tolentino. Epifania. Poesia. Introdução: A imitação do amanhecer e As epifanias Bruno Tolentino, nascido no Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1940, faleceu em São Paulo, em 27 de junho de 2007, exatamente um ano após o lançamento do livro A imitação do amanhecer, na mesma cidade. Embora o autor seja protagonista de uma biogra ia quase cinematográ ica (que inclui encontros com escritores famosos, viagens por inúmeros países, trá ico de drogas, prisão, casamentos e aventuras amorosas, conversão religiosa, fama de polemista e um extenso e divertidíssimo anedotário), embora tenha recebido duas vezes o prêmio Jabuti, em 1995 e 2003 e a homenagem póstuma do prêmio em 2007 1 – pelos livros As horas de Katharina (1995), O mundo como ideia (2002) e A imitação do amanhecer (2006), respectivamente –, embora tenha recebido o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes (2002) e outros prêmios de poesia, Tolentino e sua obra continuam a ser, com poucas exceções, amplamente desconhecidos da crítica literária brasileira. Em 2007, na medida do que sua saúde permitiu, Tolentino ainda ofereceu um curso de literatura, em São Paulo. Em uma de suas últimas aulas, publicadas postumamente, Bruno Tolentino (2008) airma: É essa dimensão metafísica da vida que transigura tudo. Temos a impressão que tudo existe apenas porque Deus está respirando e, se Ele parasse de respirar, tudo se desfaria em poeira. Na verdade tudo é poeira mesmo, mas nesses momentos, como que numa respiração de Deus, todo aquele pó se transforma em brilho – que às vezes é percebido, às vezes não. Isso é o momento de epifania (TOLENTINO, 2008, p. 19-20). “O momento” descrito por Tolentino apresenta os mesmos fatores que criam a tensão da primeira parte, intitulada As epifanias, de A imitação do Amanhecer. Trata-se, sem dúvida, de uma compreensão tradicional do termo “epifania”, relacionada a uma “dimensão metafísica da existência”, na qual as coisas se ligam à “respiração de Deus”, ao eterno. A efemeridade é expressa na imagem da “poeira” e do “pó”, mas tem a chance de se revestir de um “brilho” eterno. O nexo com a tradição não causa surpresa, pois Tolentino não se deseja cético comentarista, mas renovador e continuador da cultura ocidental.