Delírio e Epilepsia na Grécia Clássica 1 Henrique Cairus UFRJ O vernáculo 'delírio' nasceu com a marca da anormalidade. O verbo latino 'delirare', em sua primeira acepção, significava 'sair da linha reta', e, ainda que hoje pouca coisa no delírio nos faça lembrar esse étimo não muito remoto, é importante refazer o percurso semântico deste termo para elucidar alguns pontos não muito claros de nossa concepção de delírio e de sua dívida histórica. As motivações da passagem semântica desse significado para o atual pressupõe um caminho onde a presença mais sensível é a da noção de patogênese a ele associada. Mas não foi sempre assim. É no delírio que se faz sentir com mais nitidez uma disputa permanente – sem vencedores senão parciais – entre as interpretações transcendente e imanente das manifestações psicopáticas. A inscrição do delírio na galeria sintomatológica deve-se ao advento da medicina hipocrática no século de Péricles. Mas essa adscrição jamais seria acolhida integralmente pela cultura grega, nem mesmo em tempos cristãos. A medicina nasceu acompanhada da diagnose e da terapia mística e com ela manteve um relacionamento que, embora paralelístico, patrocina alguns cruzamentos em pontos específicos do tempo e do espaço históricos. O percurso do delírio na história da cultura grega mereceria uma longa investigação para a qual já foram dadas contribuições de relevo. Para promover um mergulho moderado no tema, um recorte faz-se necessário, e, por razões que logo veremos, selecionei o diálogo que a tragédia euripidiana mantém com a medicina hipocrática. Dessa forma, pretendo demonstrar as ressonâncias da medicina na cultura grega e os limites dessa ressonância. Dirigirei minha atenção a três aspectos da documentação da Grécia antiga a 1 Conferência proferida em 2000, no Curso de Especialização em Psiquiatria da UERJ