Jazz brasileiro e Fricção de Musicalidades * Acácio Tadeu de C. Piedade Este texto é uma breve etnografia da música popular instrumental brasileira, no Brasil chamada de música instrumental, que se inscreve no universo internacional do jazz como jazz brasileiro 1 . Pretendo focalizar o jazz brasileiro como um gênero musical da música popular brasileira e não como uma adaptação nacional do jazz, bem como buscar levantar suas principais características e seus nexos sócio-culturais em contraste com o jazz norte-americano. O objetivo específico é mostrar como no jazz brasileiro há uma constante referência ao jazz norte-americano, principalmente no âmbito das improvisações, e que estas referências marcam o encontro tenso da musicalidade brasileira com a norte-americana, que é uma característica fundante desta música. Inicialmente explico o sentido do termo música instrumental, e em seguida traço um breve panorama histórico do jazz brasileiro e esboço uma definição do campo musical mais recente através de suas linhas. Após isto, explico a utilização do termo bebop, que muitas vezes aparece na forma verbal bebopear, e na parte seguinte mostro as correlações entre jazz brasileiro e bebop. No final do texto, para dar conta das características do jazz brasileiro, procuro desenvolver alguns conceitos, principalmente a idéia da fricção de musicalidades. Devo salientar que não pretendo escrever uma história do jazz brasileiro e sim iniciar uma exploração do tema buscando reunir dados preliminares para a construção do jazz brasileiro como objeto de estudo etnomusicológico. O trabalho é baseado em dados etnográficos obtidos em entrevistas e encontros com músicos atuantes no cenário da cidade de São Paulo, um dos mais significativos do Brasil (Piedade 1999b). A estes músicos e seus ouvintes, bem como aos apreciadores e críticos do jazz brasileiro chamarei de nativos, no sentido de pertencentes a uma comunidade musical. Os resultados deste texto contam ainda com minha própria formação musical e experiência profissional como músico neste cenário. Ao invés da palavra “jazz brasileiro”, a designação deste gênero musical no Brasil é música instrumental brasileira. É claro o este termo “instrumental” também no Brasil aponta diretamente para toda a música composta e tocada exclusivamente por instrumentos, isto é, que não é canção ou que não apresenta nenhuma forma de texto ou letra, o que inclui também formas de música erudita, música eletrônica, etc. No entanto, o termo música instrumental é o rótulo utilizado pelos nativos para todo o corpo de produções musicais do jazz brasileiro. Assim, a categoria MPB (música popular brasileira), tomada como o conjunto heterogêneo de produções musicais urbanas populares no Brasil que se consolida a partir dos anos 70, é aqui tomada como um super-gênero que é constituído por categorias como música instrumental, rock/blues nacional, bossa-nova, pagode, música sertaneja, samba, forró, axé-music, lambada, samba-reggae, etc. Porque há muitos tipos de música instrumental, como música erudita de câmara, os nativos estão conscientes da inadequação do termo música instrumental, e para eles a designação correta deveria ser música popular instrumental brasileira. Já em revistas e lojas de discos fora do Brasil é empregado o termo brazilian jazz, sendo que especialmente nos EUA o jazz brasileiro se encontra enquadrado frequentemente como um sub-campo do latin jazz, rótulo genérico que abriga também * Esta é uma versão em português do artigo “Brazilian Jazz and Friction of Musicalities”, publicado em Atkins, E. Taylor (ed.) 2003. Planet Jazz: Transnational Studies of the “Sound of Surprise”, University Press of Mississippi, pp. 41-58.