outubro - 33 outubro - 33 outubro - 33 outubro - 33 outubro - 33 O espectro do Manifesto No dia 27 de janeiro de 1848, o deputado conservador Alexis de Tocqueville discursou na Câmara dos Deputados da França alertando o re- gime sobre os perigos que corria. Segundo Tocqueville, um ameaçador flu- xo de idéias perturbava a paz social. Nas classes operárias, embora ainda tranqüilas, ganhavam força idéias que questionavam os governantes e, ter- ror dos terrores, a propriedade privada. “Tal é, senhores, minha convicção profunda: creio que dormimos no momento em que estamos sobre um vul- cão”, concluiu o deputado sob vaias e protestos. 1 Mal se passaram outros 27 dias daquele ano e o vulcão explodiu. Uma revolução derrubou estrepitosamente o rei Luís Felipe e proclamou a República. O povo ocupou a Câmara e, da mesma tribuna que poucos dias antes havia usado o deputado conservador, discursou contra os governantes e a propriedade privada. A revolução se espalhou como um rastilho de pólvora. Em poucos dias a Europa inteira estava convulsionada, atingindo até mesmo boa parte da pacata Alemanha, a terra de Karl Marx e Friedrich Engels. É a perspectiva de uma revolução eminente o que explica os passos dados para uma unificação entre o Comitê de Correspondência de Bruxelas, do qual Marx e Engels faziam parte, e a sessão londrina da Liga dos Justos. 2 Os contatos dos dois com o grupo de Londres exis- O espectro do Manifesto. A propósito dos 150 anos de uma teoria da ação revolucionária Alvaro Bianchi Mestrando em Sociologia na Universidade Estadual de Campinas 1 Alexis de Tocqueville, “Discurso pronunciado na Câmara dos Deputados, a 27 de janeiro de 1848, na discus- são do projeto de declaração de voto em resposta ao discurso da coroa”, in, idem, A democracia na América, Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1977, p. 579. 2 Para uma história da Liga dos Comunistas, ver Friedrich Engels. “Contribuição à história da Liga dos Comu- nistas”, in Karl Marx e Friedrich Engels, Obras escolhidas, São Paulo, Alfa Ômega, s.d., v. 3. Bert Andreas, La Ligue des Communistes (1847). Documents constitutifs, Paris, Aubier, 1972. Karl Marx et alli., De la “Liga de los Justos” al Partido Comunista, México D.F., Roca, 1973. Michel Löwy, La teoria de la revolución en el joven Marx, Buenos Aires, Siglo XXI, 1972. O capítulo “Marx e o Partido Comunista (1846-1848)” pode ser encontrado, com algumas modificações, em Teoria e Prática, 3, 1968, pp. 103-122. Também permanece importante o livro de Boris Nicolaïevski e Otto Maenchen-Helfen, La vida de Carlos Marx, Madri, Ayuso, 1973.