1 Entre o sagrado e o profano: reflexões sobre o catolicismo popular e as tradições africanas no Brasil escravista e no pós-Abolição Maria Cristina Wissenbach Departamento de História / USP Apresentar uma comunicação sobre o tema da relação entre catolicismo popular e crenças e práticas africanas é sempre um desafio. As colocações feitas aqui são bastante gerais e constituem mais pressupostos do que afirmações conclusas. São reflexões que acompanham minhas pesquisas desde a época do doutorado, 1 e que atualmente convergem em direção ao campo da história da África pré-colonial e da diáspora africana para o Novo Mundo, entre os séculos XVI e XIX. Decorrem, em termos amplos, da constatação da intensa presença africana nas sociedades americanas e da natureza e importância desta história como substrato na constituição de aspectos da cultura, da organização social e da religiosidade de amplas camadas da população brasileira, na época da Colônia e do Império. Remetem-se, em outros termos, à produção historiográfica mais recente que procurou reinterpretar o sentido que crenças, práticas mágicas e religiosas tiveram no contexto da sociedade escravista brasileira e na reorganização da vida de libertos e afrodescendentes no período pós- Abolição. 2 O esforço de revisão que vem caracterizando a discussão sobre os significados do religioso na organização de largas parcelas da população brasileira partiu, inicialmente, de um foco historiográfico capaz de redimensionar o protagonismo de agentes sociais até então relegados ao esquecimento. A partir de uma outra escala de observação, verificou-se que durante o regime escravista não só a sociabilidade de escravos e forros esteve marcada por festas, danças e batuques e por instituições 1 Maria Cristina Cortez Wissenbach, Ritos de magia e sobrevivência. Sociabilidades e práticas mágico- religiosas no Brasil (1890-1940). Tese de Doutoramento, FFLCH/USP, 1997. 2 Maria Cristina Cortez Wissenbach, Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade possível. In: Nicolau Sevcenko (org). República: da Belle Époque à Era do Rádio. Vol. 3 da História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1998, 49-130.