PETRARCA E AS METÁFORAS ANIMAIS COMO RECURSO VEXATÓRIO Bianca Fanelli Morganti Universidade Federal de São Paulo Resumo. Ao longo dos quatro livros das Invective contra medicum, Petrarca emprega uma ampla gama de metáforas animais a fim de denegrir seu adversário. A obra, escrita entre os anos de 1352 e 1355, foi, de acordo com o poeta, destinada a um anônimo médico da corte papal de Clemente VI e era uma resposta ao violento ataque que lhe fora desfe- rido por este homem, que parece ter ficado ofendido com algumas afirmações feitas por Petrarca em uma carta enviada ao papa pouco tempo antes. Por intermédio de duras críticas à dialética, estas invectivas promovem um ataque ainda mais forte contra a “me- cânica” arte da medicina, que encerra, por sua vez, uma mais ampla batalha contra um numeroso conjunto de intelectuais reunidos pelo poeta no grupo dos magistri artium dos mais renomados centros escolásticos de sua época. A linguagem crua e violenta destas invectivas é pressuposta pelas convenções do gênero e são tomadas dos seus modelos, latinos e cristãos, manifestamente evocados por Petrarca. O poeta não poupa seu adver- sário de um ataque pessoal, e o compara com um ávido cão incapaz de controlar seus apetites, tal como mencionado por Sêneca em uma carta a Lucílio. Numa evocação às Verrinas de Cícero, o médico é então descrito como um porco, e é também representado como um asno saído do livro de Apuleio. Também as Sagradas Escrituras fornecem a ele um amplo repertório de imagens bestiais, como a da traiçoeira e venenosa cobra ou a da mal-cheirosa poupa que se alimenta de excrementos e restos humanos. Dessa ma- neira, Petrarca mobiliza um largo bestiário para reprovar o estilo de vida do médico, seus hábitos e práticas, e assim denegrir a sua imagem. Inversamente, o poeta compara a si próprio com um animal uma única vez, o leão, num esforço manifesto de produzir uma imagem positiva do orador, contraposta àquela do médico. Sob a alegoria desses símiles vexatórios, Petrarca pressupõe todo um sistema de sentidos consolidado por um extenso e difundido costume poético, e cristalizado por um vasto conjunto de comentários e exegeses. Este artigo pretende perseguir essas comparações vituperativas, os sentidos implicados nessas metáforas para a prática do discurso petrarquista e, mais especifica- mente, para a economia argumentativa dessas invectivas contra o médico do Papa. Palavras-chave. Petrarca, invectivas, metáforas, bestiário, retórica, vitupério. Poeta laureado no CAMPIDOGLIO romano, Francesco Petrarca empe- nhara-se, como é notório, na reelaboração da produção letrada da Roma an- tiga. Cícero, autor apreciadíssimo pelo poeta, ofereceu-lhe grande parte do Letras Clássicas 13 (2009) 93–114 © Universidade de São Paulo