NOTA A RESPEITO DE MEDIDAS PARA GRÃOS UTILIZADAS NO PERÍODO COLONIAL E AS DIFICULDADES PARA SUA CONVERSÃO AO SISTEMA MÉTRICO Francisco Vidal Luna Herbert S. Klein A questão das unidades de medida representa um dos mais complexos problemas a se resolver ao estudarmos a história econômica no Brasil, particularmente para o período anterior a 1862, quando implantou-se o sistema métrico no país. Área, distância, peso e volume eram anotados em unidades de difícil conversão. Nem sempre as unidades apresentavam valor homogêneo por todo o país, por vezes diferiam de significado em relação às mesma medidas praticadas em Portugal e também ocorriam mudanças ao longo do tempo. Vários pesquisadores procuraram encontrar formas de conversão dessas medidas. Iraci del Nero da Costa, nesse mesmo Boletim de Demografia Histórica (BHD - número 1) publicou uma nota a respeito do tema, discutindo as dificuldades normalmente enfrentadas e arrolando obras que versam sobre o assunto, bem como algumas tabelas de conversão.(1) Em outro número do Boletim (BHD - número 9) transcreveu-se o capítulo de Metrologia de Luis Lisanti Filho, incluído na obra Negócios Coloniais: uma correspondência comercial do século XVIII.(2) Em nosso caso, dedicamo-nos nos últimos anos a uma ampla pesquisa a respeito de São Paulo, entre 1750 a 1850, baseada particularmente nas Listas Nominativas dos Habitantes. Esta rica documentação manuscrita pertence ao acervo do Arquivo do Estado de São Paulo e contém dados de natureza demográfica e também informações relacionadas com a produção agrícola. Estes dados econômicos são, infelizmente, menos sistemáticos se comparados aos demográficos, limitam-se, ademais, ao período posterior a 1798, embora as Listas existam com regularidade a contar de 1765. Na análise da agrícola agricultura enfrentamos diversos problema relacionados com a conversão de unidades de medida, alguns dos quais pretendemos expor nesta nota.(3) Determinados produtos como o café, açúcar, tabaco, algodão toucinho, eram medidos, por via de regra, em arrobas, embora também houvesse registros pouco sistemáticos em outras unidades de medida. E a arroba, unidade de peso, apresentou estabilidade no seu conceito, tento em termos espaciais como temporais. Sua conversão foi claramente definida pela Lei 1157, de 1862, que institucionalizou o sistema métrico no Brasil: uma arroba correspondia a 14,689 quilos. O problema reside com outros produtos, como milho, arroz, feijão, farinha de mandioca e aguardente. Nesta nota vamos nos concentrar na análise dos grãos, que eram medidos por unidade de volume e não por unidade de peso. O alqueire representava sua medida costumeira, mas haviam outras, particularmente para o milho, anotado em carros, cavalos, mãos, cargas etc. Pela maior importância do uso do alqueire, analisamos essa unidade de medida, que apresentou consistência de valor durante os séculos XVIII e XIX e cuja conversão foi claramente definida na Lei de 1862. Entretanto como o alqueire representava volume sua conversão deu-se para litros, também unidade de volume. Como na atualidade os grãos são medidos em unidade de peso, havia a Francisco Vidal Luna and Herbert S. Klein, “Nota a respeito de medidas para grãos utilizadas no período colonial e as dificuldades para sua conversão ao sistema métrico.” Boletim de História Demográfica (São Paulo) Ano VIII, no. 21, (March 2001), pp. 1-3