NOTAS PARA O ESTUDO DO PAPEL SOCIAL DA MÃE: REPRESENTAÇÕES E NORMAS NO THEATRO DE MANOEL DE FIGUEIREDO (*) Propomo-nos aqui destacar um dos membros do grupo familiar — a m ã e — , procurando na obra teatral de Manuel de Figueiredo ( 1 ) , e s c r i t a e n t r e 1 7 5 6 e 1 7 7 7 ( 2 ), as suas representações, os seus modelos, isto é, o discurso normativo que à mãe diz respeito, visando uma aproximação ao papel que a elite bem-pensante de setecentos lhe procurava atribuir. 1. A selecção de um objecto de estudo e a perspectiva sob a qual é abordado não são nunca em história (como noutras ciên- cias) escolhas gratuitas. Ao definirmos um campo de análise, elegendo-o como território da nossa pesquisa e aplicando-lhe determinada abordagem, estamos a comprometer-nos, a proferir o nosso credo. Importa, pois, descodificar os postulados de um credo na análise histórica da mãe: será legítimo isolar a mãe e fazer dela (*) O presente artigo é fruto de algumas interrogações sobrevindas durante a recente elaboração de um trabalho mais vasto — Mulheres, espaço e sociabilidade. A transformação dos papéis femininos em Portugal à luz de fontes literárias (segunda metade do séc. XVIII)Lisboa, Livros Horizonte, 1989. ( 1 ) Theatro de Manoel de Figueiredo, 14 vols., Lisboa, tomos I e II Of. Typographica, tomos III a XIV Impressão Regia, 1775-1815. Todas as composições dramáticas de Figueiredo estão publicadas, pelo que, ao citá-las, indicar-se-á somente o tomo em que se encontram. ( 2 ) Manuel de Figueiredo escreve os primeiros dramas em 1756 e 1757, reatando a sua actividade teatral em 1773. São várias as peças não datadas e existe uma escrita já em 1748 e aperfeiçoada posteriormente, em 1757. A quase totalidade da sua produção teatral data dos anos 70.