Este artigo apresenta uma explicação para o desenvolvimento do sistema partidário brasileiro após 1982 1 . O objetivo é mostrar: (1) por que o atual sistema, a despeito da marcante continuidade no que se refere aos traços mais gerais do arranjo institucional, apresenta-se muito mais fragmentado do que aquele da República de 46; (2) como foi possível, apesar de tal frag- mentação e, acrescente-se, da notória fragilidade dos vínculos entre eleitores e partidos, que o sistema partidário nacional adquirisse um padrão estável de competição; e (3) por que tal estabilidade não se observa no plano estadual. Para o desenvolvimento do argumento leva-se em conta: a) o contexto e a estrutura de incentivos nas quais os atores iniciaram e desenvolveram o jogo político a partir dos anos 1980; b) os eventos históricos dotados de força suficiente para impactar, e eventualmente modificar a dinâmica da disputa partidária; c) o impacto do caráter “aninhado” da competição eleitoral no país, especialmente no que se refere à conexão entre as disputas estaduais e a nacional, sobre as escolhas feitas pelos líderes partidários. O texto está organizado da seguinte forma: na primeira parte argumenta-se que a conjunção entre, de um lado, o contexto e a estrutura de incentivos insti- tucionais nos quais os atores passaram a operar pós-82 e, de outro, determina- dos eventos históricos, particularmente o período crítico situado entre 1986 e 1989, é necessária e suficiente para explicar o alto grau de fragmentação do atual 1 Neste texto retomo e atualizo ideias desenvolvidas em Melo (2006) e (2007). Revista Brasileira de Ciência Política, nº 4. Brasília, julho-dezembro de 2010, pp. 13-41. Carlos Ranulfo Felix de Melo Eleições presidenciais, jogos aninhados e sistema partidário no Brasil