221 Problematizações a partir da Experiência Religiosa Masculina Ezequiel de Souza* Uma das fontes da Teologia é a experiência humana. Em 1925, Rudolf Bultmann publicou um artigo com o título “Que sentido faz falar de Deus?”. Segundo o autor, toda tentativa de falar sobre Deus resulta em pecado. Falar de Deus é falar de nós mesmos 1 , de nossa experiência com Deus. Qualquer discurso que se pretenda objetivo sobre Deus pressupõe a existência de um lugar onde o teólogo pudesse se colocar para descrever o que vê. Levando a sério a historicidade do ser humano, Bultmann aceitou as categorias do existencialismo para expressar a existência autêntica e a existência inautêntica: A existência inautêntica é a existência decaída ao nível do mundo, é fuga de si, é deixar-se enredar pelas coisas, é viver e perder-se nas preocupações cotidianas; é a existência do homem atarefado no mundo. A existência autêntica é compreender-se a partir de si mesmo e das próprias possibilidades e atualizar-se na decisão e na ação; é viver as próprias possibilidades, é presença para si mesmo, é aceitação de si mesmo, da própria finitude e contingência, e da morte como última e insuperável possibilidade. O protender-se do ser do homem na decisão e na responsabilidade desde o nascimento até a morte é sua historicidade. 2 Segundo Jürgen Moltmann, o conceito de experiência não é inequívoco: “o motivo para a falta de clareza do conceito não está na * Ezequiel de Souza é teólogo brasileiro e possui licenciatura em Ciências Sociais. Tem mestrado em Teologia pela Faculdades EST e é doutorando em Teologia na mesma instituição com o apoio do CNPq – Brasil. É integrante do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Protestantismo – NEPP – e do Grupo Identidade, ambos da Faculdades EST. 1 Cf. BULTMANN, Rudolf. Que sentido faz falar Deus? Crer e compreender: Ensaios selecionados, edição revista e ampliada. São Leopoldo: Sinodal, 2001, p. 28. 2 GIBELLINI, Rosino. A teologia do século XX. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2002, p. 38s. 222 falta de um esforço de compreensão, mas sim no simples fato de que a partir das experiências elementares nós chegamos aos conceitos, mas que a partir dos conceitos não chegamos a estas experiências” 3 . Para o teólogo alemão, existem duas compreensões muito difundidas sobre o conceito de experiência: a primeira está vinculada à percepção dos sentidos, podendo ser individual ou coletiva. A segunda compreensão está ligada à ciência, baseada no método e na capacidade de comprovação. O moderno conceito de experiência teve uma grande influência do método cartesiano. René Descartes iniciou suas Meditações com a apresentação da dúvida metódica. Diferentemente do ceticismo, a dúvida metódica é um princípio epistemológico que parte do pressuposto que os sentidos são enganadores e, portanto, não são dignos de testemunhar a verdade: apenas a razão possui tal prerrogativa 4 . De equívocos dos sentidos, Descartes deriva seu caráter falacioso: “Até o momento presente, tudo o que considerei mais verdadeiro e certo, aprendi-o dos sentidos ou por intermédio dos sentidos; mas às vezes me dei conta de que esses sentidos eram falazes, e a cautela manda jamais confiar totalmente em quem já nos enganou uma vez” 5 . Moltmann denuncia essa arrogância humana. Para ele, “a metodização da experiência da natureza se deu com o declarado propósito de sua apropriação pelo homem, para o proveito do homem. A única coisa que resta é o ambiente humano e a natureza tecnológica” 6 . Há, entretanto, outra maneira possível de se compreender a experiência, sem necessitarmos recorrer a essa lógica metódica: a experiência de Deus. “ Experimentar Deus em todas as coisas pressupõe uma transcendência imanente às coisas, que pode ser descoberta indutivamente. É o infinito no finito, o eterno no temporal e o imperecível no perecível” 7 . 3 MOLTMANN, Jürgen. O espírito da vida: Uma pneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1998, p. 30. 4 Cf. DESCARTES, René. Discurso do método. Descartes. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 61-63. 5 DESCARTES, René. Meditações. Descartes. São Paulo: Nova Cultural, 2000, p. 250. 6 MOLTMANN, 1998, p. 41. 7 MOLTMANN, 1998, p. 45.