Gonçalo Marcelo, « A Inovação Semântica na Obra de Gonçalo M. Tavares », in Expressões da Analogia, Colibri, 2009 (pp. 233-240) 1 A inovação semântica na obra de Gonçalo M. Tavares I – A metáfora Gonçalo Marcelo (FCSH – UNL) A inovação semântica é uma noção fundamental da filosofia de Paul Ricoeur, desdobrando-se em duas grandes temáticas. Por um lado, a teoria da metáfora que é tratada em La métaphore vive 1 . Por outro, a análise do papel da intriga numa obra narrativa – conferir aos diversos elementos que a constituem a unidade temporal de uma acção total e completa – em Temps et récit 2 . Em ambos os casos, trata-se de avaliar filosoficamente a literatura, mostrando qual a sua relação com a experiência humana e com a realidade. A literatura é um produto da imaginação humana que se reflecte na linguagem. Dentro desta, existem usos que se sedimentam e passam a constituir as regras a partir das quais ela passa a operar. Se considerarmos estruturas como a frase ou o texto, conseguimos dizer até que ponto a frase faz ou não sentido, ou até que ponto, por exemplo, um romance está ou não bem construído. De todo o modo, ao fenómeno de sedimentação de um uso, técnica ou regra responde um outro, igualmente constitutivo da prática literária: a inovação 3 . Uma das marcas distintivas de qualquer bom escritor ou poeta é, sabê-mo-lo, a sua originalidade. O bom escritor consegue, através de um manancial variado de técnicas, inovar ao nível do sentido; transformar, através da sua configuração própria, uma realidade antiga numa realidade nova. A este tipo de inovação, Ricoeur chama a inovação semântica. É uma criação instantânea que se produz ao nível do discurso mas que afecta o sentido. Esta comunicação pretende lançar as bases daquilo que poderá vir a ser um estudo mais vasto das ocorrências de inovação semântica nos cadernos do escritor Gonçalo M. 1 Paul Ricoeur – La métaphore vive, Paris, Seuil, 1975. 2 Paul Ricoeur – Temps et Récit : Tome 1. L’intrigue et le récit historique (1983) ; Tome II. La configuration dans le récit de fiction (1984) ; Tome III . Le temps raconté (1985), Paris, Seuil. 3 A propósito do jogo entre sedimentação e inovação que constitui a tradição, veja-se Temps et Récit Tome I, páginas 132-135.