In: Armanda Costa e Inês Duarte (eds.), 2012, Nada na Linguagem Lhe é Estranho. Homenagem a Isabel Hub Faria. Lisboa: Ed. Afrontamento. 293-305. Para o estudo do Cancioneiro Geral: uma perspectiva linguística. Esperança Cardeira Uma análise linguística do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende poderá elucidar-nos sobre mudanças ocorridas no período final do português médio. O presente trabalho pretende apresentar propostas de pesquisa, levantando algumas questões que se prendem com a elaboração desta compilação (datação de composições, identificação de poetas, caracterização da língua da segunda metade do século XV). Algumas perguntas (e propostas de pesquisa) O Cancioneiro Geral é uma compilação da poesia palaciana produzida durante os reinados de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I. A colecção foi organizada por Garcia de Resende (1470-1536) e é constituída por cerca de um milhar de composições de quase 300 poetas da corte portuguesa da segunda metade do século XV e inícios do XVI . A colectânea, impressa em 1516 em Almeirim e Lisboa por Hermão de Campos (Kempis ou von Kempen), impressor de D. Manuel I, insere-se num movimento editorial que se vinha materializando, na Península Ibérica, em obras como o Cancionero de Baena (Juan Alfonso de Baena, 1445) ou o Cancionero General (Hernando del Castillo, 1511). O contexto social, político e económico era propício a este tipo de actividade cultural. Ao longo do século XV o fortalecimento do poder monárquico nas cortes peninsulares favoreceu a progressiva importância da corte como centro cultural e a concentração da vida intelectual em torno do rei. Nos serões da corte organizavam-se festividades em que os poetas se promoviam socialmente. A produção poética, reveladora da presença crescente de uma corrente secular e encarada como uma forma de convívio cortesão, revestia um carácter predominantemente lúdico, raiando a futilidade. Garcia de Resende, que serviu três reis 1 , conhecia por dentro o ambiente cortesão e gozava da simpatia de D. João II e de D. Manuel, encontrando-se em situação privilegiada para reunir estes textos, quer directamente quer através da recolha dos que circulavam em ‘livros de mão’, pequenos cancioneiros dispersos ou rolos avulsos de coplas. Foi o que fez, aparentemente sem respeitar qualquer ordem cronológica, já que o Cancioneiro abre com a tenção Cuidar e Suspirar, de 1483-84 (fls. 1-15) a que se seguem dois conjuntos de composições (umas cronologicamente anteriores à composição de 1 Garcia de Resende viveu nas cortes de D. João II, D. Manuel e D. João III; do que viu e do que soube dá Resende testemunho também no Livro das Obras (edição crítica, estudo textológico e linguístico de E. Verdelho, 1994).