cadernos de campo, São Paulo, n. 21, p. 1-360, 2012 Pontos em expansão: uma conversa com Marilyn Strathern autores: BRUNO GUIMARÃES, LUISA GIRARDI, MARIANA OLIVEIRA, RUI HARAYAMA tradução: BRUNO GUIMARÃES, LUISA GIRARDI, RUI HARAYAMA revisão técnica: VITOR GRUNVALD Se é possível dizer que Marilyn Strathern dispensa apresentações no meio acadêmico, a vastidão de sua obra e dos temas de suas pesqui- sas inspira no leitor a sensação de constante im- previsibilidade em relação às suas ideias. Com relexões inovadoras nos campos dos estudos de gênero, etnologia, propriedade intelectual, parentesco e novas tecnologias reprodutivas, para citar apenas alguns exemplos, a antropó- loga visitou a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em outubro de 2009, para um ciclo de conferências¹ que tornava explíci- ta, mais uma vez, a singularidade de sua obra. Em meio às palestras proferidas, Strathern ge- nerosamente aceitou nos conceder uma entre- vista para discutir o percurso mais recente de suas investigações. A soisticação analítica da melanesianista e a relevância de seus trabalhos para o pensamento antropológico levaram-na a ser frequentemente entrevistada no sentido de debater conceitos cen- trais à sua produção intelectual e as implicações de suas pesquisas para as várias áreas das ciências humanas. Nossa conversa percorreu um cami- nho menos usual, tratando antes de suas ins- pirações, modos e condições de trabalho. Uma proposta despretensiosa de realizar outro aporte à complexidade da empresa teórica e etnográica da autora. A expectativa é que nossas questões contribuam para a formulação de outras. É preciso mencionar que, sem o convi- te feito pelo Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (IEAT/UFMG), Marilyn Strathern não teria vindo ao Brasil em 2009. Indispensáveis ao evento, nesse sentido, foram os esforços do Professor Eduardo Viana Vargas, que esteve à frente da organização das confe- rências realizadas. Vargas também ofertou, no segundo semestre daquele ano, a disciplina “Dádivas, Gênero e Conexões Parciais: Leitu- ras de Marilyn Strathern” pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAN/ UFMG), contexto que propiciou o ambiente intelectual que está na origem desta entrevista. Por isso, e por todos os muitos auxílios, somos- -lhe gratos. A Marilyn Strathern, por toda a gentileza e paciência, o nosso obrigado. Da última vez que esteve no Brasil, você fa- lou a respeito da sua trajetória desde a entrada na Universidade de Cambridge. Gostaríamos de começar perguntando algumas coisas sobre antes e depois. Sobre antes: o que te levou a escolher a antropologia? MS: Eu costumava escavar sítios arqueoló- gicos locais quando era adolescente e me tornei bastante entusiástica em relação à arqueologia. Eu vivia nas proximidades do sul de Londres, no noroeste de Kent. Nos tempos romanos, essa região era um subúrbio: uma área cheia de casas, ladrilhada com mosaicos romanos. A partir dos treze anos, acredito, eu costumava sair para escavar aos inais de semana, normal- mente aos domingos, para escapar da família. Eu me tornei muito interessada em arqueolo- gia. Quando descobri que na Universidade de Cambridge se poderia estudar tanto arqueolo-