133 TÁCITO, SUA VIDA DE AGRÍCOLA, E A COMPETIÇÃO ARISTOCRÁTICA NO ALTO IMPÉRIO ROMANO 1 Fábio Duarte Joly 2 Fábio Faversani 3 Resumo Este artigo apresenta uma análise da Vida de Agrícola, de Tácito, buscando apontar como nessa obra literária, composta no gênero das laudationes funebres, o autor tece uma reflexão sobre os comportamentos políticos predominantes na aristocracia dos séculos I e II d.C. Deste modo, além de se adequar a um determinado gênero literário, a obra em questão mostra-se uma forma de intervenção política num quadro de intensa competição aristocrática no Alto Império Romano. Palavras-chave: Roma, Tácito, aristocracia. Abstract This article aims to analyse Tacitus‟ Life of Agricola, seeking to identify how this literary work, following the genre of the laudationes funebres, presents a reflection about the most common forms of the Roman aristocracy‟s political behaviour in the first and second centuries A.D.. Our argument is that, besides following the precepts of a particular literary genre, this work was also a form of political intervention in a context of intense aristocratic competition in the Early Roman Empire. Keywords: Rome, Tacitus, aristocracy. Introdução Um debate importante no âmbito dos estudos sobre as obras de Tácito reside nas respostas que foram dadas pelos estudiosos à seguinte pergunta: suas obras são ações políticas do autor ou artefatos literários mais voltados a uma tradição do que a um contexto dado? Este artigo busca analisar este problema estudando, de forma mais detida, a biografia de Agrícola, escrita por Tácito em 98 d.C. Entendemos, em primeiro lugar, que Tácito se utilizou das tradições literárias para construir uma posição política no interior de um ambiente de dura competição intra- aristocrática. Em segundo lugar, também é objetivo deste estudo caracterizar, por meio da análise da figura de Agrícola, como Tácito qualificava esta disputa na aristocracia do Alto Império. Há um consenso de que o elogio a Agrícola tem como conceitos fundamentais a moderatio e a prudentia do biografado. A postura de Agrícola lhe permitiu sobreviver. Este é um ponto que já foi bem explorado pela historiografia (por exemplo, BIRLEY, 2009: 47-58). Apontamos, contudo, para um novo problema: a quem sobreviveu Agrícola? A crítica aponta para o tirano, para Domiciano, particularmente. É verdade. Sobreviver a um mau imperador é um desafio para um aristocrata virtuoso. Mas há de se sobreviver também aos que se beneficiam de um regime tirânico, prejudicando aos demais aristocratas, por exemplo. Os quinze anos de Domiciano não teriam sido obra apenas de um imperador louco que teria colocado uma 1 O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, através de seu edital Universal e bolsa Produtividade em Pesquisa. 2 Professor adjunto de História Antiga na Universidade Federal de Ouro Preto. 3 Professor adjunto de História Antiga na Universidade Federal de Ouro Preto.