Teoria e Cultura Juiz de Fora v .3, n. 1/2 p. 63-78 Jan./dez. 2008 O PROBLEMA U ma rede genealógica corresponde a um fenômeno essencialmente histórico. Sua trama, deinida nos termos de seu reconhecimen- to pelos que dela são criadores e criaturas, se des- dobra no tempo e no espaço. Seus ios provêm de lembranças e de esquecimentos daqueles que a tecem. Devemos a W.H.R. Rivers a sua entroniza- ção como objeto de conhecimento dos mais úteis à Antropologia. Em um célebre artigo publicado em 1910, o autor chama a atenção para o interesse desse material em diversas áreas da disciplina, e propõe métodos e técnicas de coleta e organização de dados genealógicos, rapidamente consagrados nas Notes and Queries..., o livro de cabeceira dos etnógrafos da primeira metade do século XX. Em linhas gerais, as propostas, os protocolos e as cau- telas de Rivers não envelheceram. Formulados há quase um século, continuam válidos, assegurando a produção de materiais idedignos, sobretudo em contextos de tradição oral. Porém, convém lembrar que um corpus gene- alógico, de onde são extraídos os dados brutos a partir dos quais uma ferramenta computacional pode representá-los na forma de rede, com ela não se confunde porque, antes de qualquer coisa, as relações de parentesco comportam múltiplas di- mensões sociais. Além disso, via de regra, as ge- nealogias apresentam um conjunto de registros inevitavelmente incompleto e fragmentário. De um lado, as informações, quanto mais remotas no tempo e no espaço, tendem a ser mais rarefeitas e imprecisas. De outro, o material acumulado por um pesquisador quase sempre resulta da recolha de informações de fontes variadas, por vezes em conlito. E assim, dada a possibilidade de que di- ferentes indivíduos de uma mesma rede não com- partilhem uma mesma memória genealógica, nada assegura que a bricolagem produzida pelo etnó- grafo corresponda a um “fato objetivo”, dotado de uma realidade social autoevidente e consensual. No entanto, parece razoável supor que, através do exame de um corpus genealógico de boa qualida- Informatizando o método genealógico: um guia de referência para a Máquina do Parentesco Computing the genealogical method: a guide for the Kinship Machine João Dal Poz * Marcio Ferreira da Silva ** Resumo A experiência aqui relatada tem por base o desenvolvimento do aplicativo denominado Máquina do Parentesco, e busca articular pressupostos muito conhecidos da teoria do parentesco inaugurada por Lévi- Strauss (LéVI-STRAUSS, 1949; DUMONT, 1971; HéRITIER, 1981; VIVEIROS DE CASTRO, 1990, etc.) a noções elementares da teoria dos grafos, tomando-a como método de análise de redes sociais, e a um sistema de gerenciamento de banco de dados muito comum em computadores pessoais. Sob o acrônimo de MaqPar, o aplicativo resulta de um projeto em andamento dedicado ao estudo comparativo dos sistemas de aliança da América do Sul Tropical coordenado pelos autores 1 . Este artigo apresenta as informações básicas sobre os conceitos norteadores da experiência em pauta e os procedimentos necessários à utilização do aplicativo. Para os interessados no detalhamento das operações efetuadas pela MaqPar, sugerimos a leitura do texto “Algoritmo Básico da MaqPar” (DAL POZ & SILVA, 2009). Palavras-chave: Parentesco. Genealogia. Rede Social. Informática. * Mestre em Antropologia (USP, 1991) e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP, 2004). Professor adjunto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. ** Mestre em Lingüística (UNICAMP, 1981) e Doutor em Antropologia Social (Museu Nacional/UFRJ, 1993). Professor assistente doutor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo.