31 A disputa por gentios e escravos no Atlântico Sul (1600-1615) Rodrigo Bonciani Doutorando pela Universidade de São Paulo, Brasil. Os anos iniciais do reinado de Felipe III, entre 1598 e 1600, foram de tran- sição. A reforma política iniciou-se na Península Ibérica, com a reestruturação dos conselhos reais e sua composição. Partindo do topo da estrutura político- administrativa, a reforma atingiu os diferentes níveis de dominium 1 daquela so- ciedade, e foi particularmente significativa no espaço ultramarino. 2 A suprema- cia do poder Habsburgo na Europa dependia da eficácia de seu projeto colonial e, no espaço Atlântico, do domínio sobre os africanos e indígenas. A intervenção na política indigenista no Brasil e no tráfico de escravos em Angola ocorreu entre 1605 e 1609. Analisarei os dispositivos desenvolvidos pela Coroa para se apropriar do domínio sobre os africanos e indígenas e a reação dos agentes coloniais nesse processo. Os primeiros anos do reinado de Felipe III e a gestão das reformas no ultra- mar (1600-1604) Em 1600 foi criada a Junta da Fazenda de Castela, órgão que interferia nos assuntos do Conselho da Fazenda e indicava a preocupação econômica na orientação da política Habsburgo. A Junta da Fazenda de Portugal foi criada em 1601, e era composta por conselheiros castelhanos, com passagem pelo Conselho das Índias e pela Casa de Contratação de Sevilha. 3 Também foram criadas juntas especiais para tratar questões específicas, tal foi o caso do tráfico de escravos africanos. 4 Muitas vezes essas Juntas trocaram correspondência di- retamente, sem a intermediação do vice-rei de Portugal, dando mais agilidade às decisões e opondo-se frontalmente aos tratados de Tomar. As primeiras medidas tomadas em relação ao ultramar procuravam coibir o contrabando, particularmente entre as Índias Ocidentais e Lisboa. Os navios