sÆculum - REVISTA DE HISTÓRIA [21]; João Pessoa, jul./ dez. 2009. 149 O IMPÉRIO DA VOZ: APONTAMENTOS SOBRE O EXERCÍCIO DO PODER PONTIFÍCIO DURANTE A “ERA GREGORIANA” Leandro Duarte Rust 1 Em janeiro de 1076 estourou a crise entre a cúria romana e a corte imperial conhecida entre os historiadores como Querela das Investiduras”, capítulo central da chamada “Reforma Gregoriana”. 2 Sua deflagração, atestaria Norman Cantor em 1958, teria feito entrar em cena a “primeira das grandes revoluções mundiais da História ocidental, e seu curso segue o padrão conhecido das revoluções dos tempos modernos (...), como a Revolução Protestante do século dezesseis, a revolução liberal do século dezoito, a revolução Comunista, do vinte 3 . Após sucessivos desentendimentos a respeito dos limites da competência régia para intervir em questões eclesiásticas, a frágil cooperação existente entre a realeza germânica e o papado se desfez na decisão do rei, Henrique IV, de lançar contra Gregório VII uma sentença de deposição. Em fevereiro, durante a celebração da habitual reunião do episcopado romano em um sínodo quaresmal, o pontífice recebeu o anúncio da medida selada pelo monarca 4 . Imediatamente, contra-atacou esgrimindo o anátema da excomunhão cristã, cujo texto segue traduzido: Bem-aventurado Pedro, príncipe dos apóstolos, inclina, nós te imploramos, teus misericordiosos ouvidos para nós e escuta-me, teu servo, quem tu alimentou desde a infância e, até este, dia livrou das mãos dos homens fracos [Est. 14:19] que me odiaram, e ainda odeiam, por minha fidelidade a ti. Tu és minha testemunha, e minha senhora a Mãe de Deus e o bem-aventurado Paulo teu irmão entre todos os santos, que tua santa igreja Romana me arrastou contra minha vontade para seu governo, que eu não o tomei por rapina para ascender à tua sé, que eu desejei antes terminar minha vida em exílio do que tomar teu lugar 1 Doutorando em História Medieval pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisador Colaborador do Programa de Estudos Medievais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor Assistente do Departamento de História da Universidade Federal do Mato Grosso. Este artigo resulta de uma pesquisa que conta com o fomento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. 2 FLICHE, Augustin. La Réforme Grégorienne. Louvain: Spicilegium Sacrum Lovaniense, 1924- 1937, 3 vol; FLICHE, Augustin. La Querelle des Investitures. Paris: Bloud et Gay, 1946; BROOKE, Zachary N. Lay Investiture and its relation to the conflito of Empire and Papacy. Proceedings of the British Academy, v. 25, 1939, p. 217-247; PACAUT, Marcel. La Théocratie: l’Église et le Pouvoir au Moyen Age. Paris : Aubier, 1957; CHÉLINI, Jean. Histoire Religieuse de l’Occident Médiéval. Paris: Pluriel, 1991. 3 CANTOR, Norman. Church, Kingship, and Lay Investiture in England (1089-1135). New Jersey: Princeton University Press, 1958, p. 6-7. 4 Há um conjunto substancial de relatos de que o eclesiástico encarregado de anunciar a sentença régia de deposição, Rolando, bispo de Treviso, causou violenta reação da assembleia, que ameaçou atacá-lo de forma letal durante o sínodo. BERTHOLDO. Annales. MGH SS, tomo V, p. 282-283; BONIZO DE SUTRI. Liber Ad Amicum. MGH Ldl, tomo I, p. 606-607; BRUNO DE MERSEBURG. De Bello Saxonico. MGH SS, tomo V, cap. 68, p. 353; DONIZO. Vita Mathildis. MGH SS, tomo XII, p. 377; PAULO DE BERNRIED. Vita Gregorii VII papae. PL, v. 148, col. 70-71.