Sobre a expulsão dos poetas na República Marco Zingano (a ser publicado em um próximo Festschrift) Poucos temas são tão clássicos como o da expulsão dos poetas na República de Platão. Trata-se, pois, de um tema incontornável da análise filosófica: Platão tem um lugar privilegiado na história da filosofia; a República ocupa um lugar central na reflexão platônica; a expulsão dos poetas toma boa parte da República e por séculos animou a contenda entre poesia e filosofia. Todo leitor imbuído de filosofia toma partido nesta disputa, a favor ou contra Platão: a expulsão dos poetas mostra, para uns, a natureza beligerante da filosofia; para outros, pretende simplesmente escamotear os próprios recursos retóricos de que se vale a filosofia; para outros enfim, delimita a abordagem filosófica em termos de verdade, ao passo que a estética se nutre do belo. O que quer Platão, então, com a expulsão dos poetas de sua bela-cidade? 1 Um primeiro ponto a estabelecer é que há, nesta expulsão, um traço de radicalidade que precisa ser reconhecido. Quando, no início do livro V, Sócrates menciona as três ondas que precisa esquivar, ele cita o problema do papel das mulheres na defesa da cidade, o da comunidade de mulheres e crianças e a necessidade do filósofo governar ou do governante tornar-se filósofo, sem fazer menção explícita à expulsão dos poetas. Pode-se pensar que esta ausência de menção deve-se ao fato dos poetas terem sido, nos livros anteriores, antes censurados do que expulsos, pois eles tinham sido condenados em função do conteúdo errado que veiculavam, restando, contudo, na cidade, toda arte que estivesse correta e fosse útil à boa formação moral dos cidadãos, assim como os próprios poetas. Como veremos, contudo, a censura à poesia ficará, no livro X, muito mais radical, acarretando a expulsão dos poetas, senão da cidade, pelo menos de uma posição que ocupam na cidade. O que me interessa ressaltar 1 Na expressão afetuosa com a qual Sócrates se refere à cidade ideal: hoi en têi kallipolei soi (VII 527c1). A expressão pode também ser usada como nome próprio, Bela Cidade, pois havia na Grécia antiga várias cidades com este nome (Kallipolis), e foi assim tomada no neoplatonismo.