IMAGENS DA CIDADE PLANEADA A diversidade cultural e o pensamento estratégico urbano de Lisboa Sofia Santos Introdução As teorias de economia urbana mais recentes relacionam o cosmopolitismo, este “ar diferente da cidade”, com um capital cultural importantíssimo para atracção de recursos humanos qualificados. Referimo-nos a factores de atracção como a ima- gem da cidade e os estilos de vida urbanos, factores complexos e de difícil medição, mas incontornáveis para os políticos urbanos, os agentes de marketing e os actores que deste dependem directa ou indirectamente, como os agentes do mercado imo- biliário e da fileira turística. Neste último domínio frequentemente o encontro com o “outro” é “vendido” como um atractivo símbolo de actualidade e novidade (Berghe, 1994). 1 Todavia, nem sempre os “outros” da cidade são percepcionados de modo positivo. Decorrente do fenómeno alargado de globalização, o aumento da imigração na Europa traz “outros” que são frequentemente compreendidos como um “problema” que está no topo da agenda política, das preocupações sociais, da gestão urbana e das referências mediáticas. São neste caso visíveis as facetas do conflito relacionadas com a manifestação de atitudes xenófobas, entre outras varia- das e complexas questões levantadas pelo encontro e convívio com um “outro” percepcionado como muito diferente e visível. No entanto, também não é recente a existência de, e a convivência com, estrangeiros nas grandes capitais europeias, es- pecialmente nas capitais de antigos impérios coloniais. Vários historiadores mos- traram como esta convivência pode constituir parte importante da construção ima- gética destas cidades (Godinho, 2004; Santos e Rodrigues, 1987). Essa herança his- tórica pode ainda constituir-se como plataforma de projecção para o futuro, como o atestam eventos como a Expo 98 (Ferreira, 2002). Porém, esta reconstrução da imagem só em determinadas condições tem tido uma tradução correlativa na revitalização do espaço público — e na transformação na apreensão cognitiva dos imigrantes e dos espaços por eles forjados graças à mercantili- zação de referências etnoculturais (Marques e Costa, 2007). Até recentemente tem do- minado uma imagem dos imigrantes associada a situações de marginalização, crimi- nalidade e exclusão social, mesmo ao nível dos planos de desenvolvimento territorial. Contudo, como o mostram as experiências em várias cidades europeias, o desenvolvi- mento do mercado da diversidade cultural pode contribuir para o reconhecimento dos imigrantes como agentes activos no desenvolvimento urbano (Rath, 2007). SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 57, 2008, pp. 131-151 1 Artigo no âmbito do projecto Ethnic tourism: an opportunity for immigrants and a new deal for the cities? (POCTI/SOC/47152/2002) financiado pela FCT.