237 DIREITO E ÉTICA DA COMUNICAÇÃO O problema da ética na comunicação pública da ciência e da tecnologia: uma proposta de manual deontológico Marcelo Sabbatini 1 Divulgação científica: ponto de encontro de saberes Dentro dos amplos processos que con- figuram a disseminação e difusão do conhe- cimento científico, cada vez mais se reco- nhece o valor da chamada divulgação cien- tífica como canal comunicativo que possi- bilite a participação da sociedade em seu sentido mais amplo no desenvolvimento científico-tecnógico, este último cada vez mais importante para o funcionamento das sociedades modernas e democráticas. Explicando a cultura e o pensamento técnico, fora do quadro de ensino oficial e não tendo como objetivo formar especialis- tas (Calvo Hernando, 1992), a divulgação ci- entífica assume uma de suas principais for- mas no jornalismo científico, que nasce de uma especialização informativa de massa que pretende divulgar a ciência e a tecnologia dirigindo-se ao público geral, oferecendo um serviço à sociedade muito similar ao desem- penhado pelas instâncias educativas. Segundo Nelkin (1995), um dos princi- pais problemas do jornalismo científico na atualidade é a grande dependência do públi- co em relação aos meios de comunicação para obter informação atualizada sobre ciência e tecnologia; o único que muitas pessoas sabem sobre este tema é o que vêem na imprensa, em confrontação com experiências educativas do passado ou de sua experiência direta. Como conseqüência, também se poderia dizer que se produz uma luta pelo controle sobre a informação, sobre os signos e imagens mediadas, valores e visões transmitidos ao público através dos meios de comunicação. Na dinâmica de interação entre o mundo da ciência e da tecnologia e os meios de comunicação surgem atritos. Os cientistas identificam a imprecisão, o sensacionalismo, a introdução de vieses e o estímulo de atitudes anticientíficas como principais dificuldades da divulgação científica (Nelkin, 1995). A este trato injustificado se acrescentam reclama- ções de banalidade, de cobertura insuficien- te, de simplificação e de espetaculosidade (Calder, 1998). Já Caldas (1998) aponta a questão do imediatismo dos meios como fonte freqüente de atrito; outros riscos mais seriam a trivialidade, a demagogia, a pressa e a confusão conceitual entre resultados de experimentos científicos e resultados reais. Cabe notar que a confusão e o sensaciona- lismo, tão presentes no jornalismo, derivam da prática jornalística da rapidez, resultando em pouco tempo para investigar e de se realizar uma análise profunda e independen- te dos fatos. Enquanto isso, os jornalistas, culpam às fontes de informação por propor- cionar informação inadequada, além de caracterizar aos peritos científicos como incomunicativos, frios, e incompreensíveis (Peters, 1999). Nesta problemática dinâmica, reclama-se cada vez mais a figura da “terceira pessoa”, o divulgador científico, um professional especializado que conheça tanto as caracte- rísticas intrínsecas da ciência e da tecnologia quanto às práticas profissionais do jornalis- mo e da comunicação, como forma de es- tabelecer uma ponte entre mundos tão dis- tintos e auxiliar nas relações de colaboração entre uma comunidade e outra. De forma que a divulgação científica não é uma soma de discursos, ou seja, a soma de ciência e jornalismo, mas sim uma arti- culação específica com efeitos particulares. (Orlandi, 2001). Reúne, assim, as condições de jornalista, cientista e divulgador. A de cientista, pela necessidade de compreender o tema do assunto, para que possa explicá- lo. A de jornalista pelo trabalho de seleção da notícia, leitura e seleção de fontes para determinação de que feitos produzidos no campo científico merecem ser notificados, levando em conta que tal escolha deve utilizar critérios como a transcendência futura da pesquisa e a capacidade de despertar curio-