237 – Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana da UFF, Vol. 5, n° 9, Novembro de 2012 ABRIL FIGUEIREDO, MONICA. NO CORPO, NA CASA E NA CIDADE: AS MORADAS DA FICÇÃO. RIO DE JANEIRO: LÍNGUA GERAL, 2011. Eduardo da Cruz (Universidade Federal Fluminense) Monica Figueiredo assume, logo no princípio do livro, que mantém um envolvi- mento longo com o principal autor estudado em seu ensaio: Eça de Queiroz. Esse escritor tem sido alvo de sua pesquisa desde o doutora- do e é seu companheiro pessoal de longa data, sendo lido por prazer desde a adolescência da autora. Desse longo vínculo, uma preocupação emerge de suas publicações, frutos de uma in- vestigação animada e criteriosa: a relação entre Literatura e Sociedade, num diálogo constante entre narrativas contempo- râneas e as do im do século XIX, sobretudo na literatura portuguesa. Antes, contudo, de começar a leitura de No Corpo, na Casa e na cidade: as moradas da icção, é preciso ouvir a recomendação que Teresa Cerdeira faz na orelha: “não se afobe não. Entre devagar neste livro”. Ai- nal, a ensaísta propõe-se em seu livro a ouvir um discurso quase inaudível: a voz e a luta de mulheres em espaços que não são habitados sem em- bate, sem dor. “Viver no corpo, na casa e na cidade não são experiências simples” (FIGUEIREDO, 2011, p. 14). Essa diiculdade, ou complexidade, é observada e discutida a partir da análise das personagens femininas de quatro romances portugueses: O Primo Basílio, de Eça de Queiroz; O Vale da Paixão, de Lídia Jorge; Pedro e Paula, de Helder Macedo; e Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. Foi lenta a emancipação feminina entre os dois ins de século comparados pela via literária. Infelizmente, ainda não é uma liberdade absoluta. Se muitos direitos foram conquistados pelas mu- lheres em pouco mais de cem anos, não foi fácil essa aquisição, numa longa história de sofrimento e repressão. O livro guia o leitor pelos caminhos dessas personagens, com todos seus obstáculos, ajudando de alguma forma