Opinião 22 13 Junho 2014 1. ESTAMOS a recordar, este ano o centenário da primeira grande guerra (1ªGG), ou guerra mundial (também dito, entre Nações colo- nialistas), que teve o seu início em 8 de Agosto de 1914 e o seu términus com o armistício em 1918, no dia da nossa Dipanda. Para recordar esta data uma uni- versidade privada portuguesa vai promover uma Conferência alusiva à data na qual vou participar com uma comunicação baseada nas partici- pações africanas num conflito, ini- cialmente europeu e que depois de 1916 se tornou mundial com a par- ticipação de países como o Japão, os EUA, o Brasil e por arrastamento os territórios coloniais africanos e asiáticos. Todavia, o começo da Guerra em África, e nomeadamente na África lusófona aconteceu logo em 1914, com as surtidas efectuadas por ale- mães aos então territórios portu- gueses de Angola e Moçambique. Em Angola, na zona do Cunene e em Moçambique na zona da foz do Ro- vuma. Na realidade, se a intervenção mi- litar africana no conflito teve logo o seu início em 1914, a verdade é que aquela começou muito antes com a guerra anglo-boer e com a tentativa de partilha territorial portuguesa conluiada entre a Grã-Bretanha e a Prússia (Alemanha), pelo acor- do secreto 1898; era a partilha dos territórios portugueses de Angola e Moçambique entre as duas potên- cias (a quase totalidade de Angola e a zona moçambicana do Niassa iam para a Alemanha; enquanto o sul de Angola e todo o restante território moçambicano eram entregues aos ingleses). Esta pretensão revogada por inoperância de Portugal – na realidade este acordo visava em- prestar a Portugal, por parte das duas potências, uma larga fatia de fundos e como a fazenda portugue- sa estava exaurida e não parecia ter possibilidades de pagar, o reembolso seria através dos territórios afro-lu- sófonos – voltou às câmaras diplo- máticas anglo-germânicas em 1913, só anulada pelo conflito iniciado a 4 de Agosto de 1914. Militarmente, a primeira inves- tida alemã da 1ªGG em território português ocorreu em Moçambique quando, na madrugada do dia 25 de Agosto de 1914, pouco depois de definida a atitude portuguesa no conflito europeu – na realidade uma atitude de não acolhimento às Os 100 anos da 1ª Guerra Mundial EUGÉNIO COSTA ALMEIDA pretensões germânicas mas sem as hostilizar, e que teria o seu apogeu com Salazar e a sua neutralidade co- laborante –, forças provenientes do «Tanganika» (Tanzânia), dirigidas por dois europeus, atacaram desur- presa o posto de Maziúa, sito na mar- gem sul do Rovuma, saqueando-o e incendiando-o; do acto, ocorreram algumas foram mortes, nomeada- mente, a do chefe do posto, enquan- to outros dispersaram ou foram tor- nados prisioneiros. Todavia, já em 1894 aconteceu, por parte dos germânicos, um ata- que e anexação de parte de uma re- gião moçambicana de Quionga, (um pequeno território de cerca de 3000 km2, na margem sul do rio Rovuma, junto à foz), sendo incorporada na colónia germânica do Tanganica. Foi devolvida com o armistício de 11 de Novembro de 1918. Em Angola, no caso o que nos in- teressa, houve diversas escaramuças resultantes da vontade alemã de juntar o sul do território à «Deutsch- -Südwestafrika» (Sudoeste Africa- no/Namíbia). Duas das principais escaramuças verificadas ocorreram logo no início do conflito, entre Ou- tubro e Dezembro de 1914, com o massacre de Cuangar, Cunene (Ou- tubro), e quando um corpo expedi- cionário germânico proveniente das terras áridas do Sudoeste africano, lideradas por um tal capitão Weiss atacou e desbaratou o corpo expe- dicionário português na Batalha de Naulila (18 de Dezembro) na mar- gem sul do rio Cunene, em território angolano dos cuamatos e junto aos territórios dos cuanhamas; um pou- co a sudoeste da confluência entre os rios Cunene e do seu afluente Ca- culevar. Esta investida ocorreu como re- presália por um ataque levado a efeito por uma força de militarizada portuguesa contra uma pretensa expedição comercial e científica proveniente do Sudoeste africano e não autorizada, e que resultou no aniquilamento da expedição ger- mânica, bem como a apreensão de um comboio de 11 carros boers que acompanhavam a missão germânica; na realidade esta missão visava levar por diante a vontade germânica de criar a «Mittelafrika» que ia do eixo «Kamerun-Togoland» (Camarões- -Togo), e incluindo a bacia do Congo, até à do Zambeze (ligação do Atlân- tico ao Índico), o que contrariava as anteriores pretensões de divisão anglo-germânica anteriormente abordada, e a ancestral ligação «ro- dhesiana» (do colonizador britânico Cecil Rodhes) de Cabo a Cairo. Desta crise luso-germânica emer- giu duas revoltas, quase em simul- tâneas, e que merecem da parte dos nossos historiadores um estudo mais desenvolvido e apurado: a revolta dos Cuamatos e dos Cuanhamas; re- voltas que tiveram o seu início com a ocupação territorial do território Humbe, cuja fronteira ribeirinha do Cunene o separava daqueles dois territórios. Na revolta terão parti- cipado cerca de 15.000 guerreiros cuanhamas e 10.000 guerreiros cuamatos, a que se juntaram 20.000 guerreiros provenientes de Dama- ralândia (Sudoeste Africano). Mas, acresce-se, que as questões territoriais angolanas não se fica- ram só pelo Sul. Também no Alto Zambeze, uma parte do território nacional foi alvo de disputa entre Portugal e os ingleses naquela que ficou reconhecida pela «questão de Barotze», entre 1890 e 1905, e que também estava incluída na aliança secreta anglo-germânica. 2. Advém, já agora, que gostava que os nossos historiadores, têm mais oportunidade que eu para o fazer – razões de saúde, impedem de me deslocar às regiões em estudo, como desejaria, – abordassem esta impor- tante temática da História angola- na, porque, actualmente, as ainda melhores fontes, se bem que pouco limitativas por omissão de fontes locais – só dá, naturalmente, a visão portuguesa –, são as do «Portal da História: A guerra em Angola», que se pode aceder via Internet. Tenho a certeza que as nossas Universidades já terão cientistas com capacidade para estudarem esta área sócio- -antropológica da nossa História política. Mapa da região do Baixo Cunene, Sul de Angola e a Damaralândia (Ovambo). Namíbia. (fonte: http://www.arqnet.pt/portal/portugal/grandeguerra/pgm_ang011.html)