3 A Construção de uma Diplomacia Europeia: Desenvolvimento da Política Externa da União Europeia após o Tratado de Lisboa The Construction of European Diplomacy: Development of European Union Foreign Policy after the Lisbon Treaty Bruno Theodoro Luciano* Boletim Meridiano 47 vol. 15, n. 143, mai.-jun. 2014 [p. 3 a 10] 1 Introdução A aproximação dos países europeus na direção de um posicionamento externo comum é um dos processos mais complexos, e ao mesmo tempo mais em aberto, de toda a evolução da integração europeia, iniciada pelas dinâmicas do pós-Segunda Guerra Mundial. Juntamente com as políticas de segurança e defesa, essa matéria representaria o que seriam os últimos bastiões da soberania estatal no contexto europeu. A conjuntura existente no processo integracionista da Europa, de construção de uma atuação internacional conjunta, tem sido um fenômeno difícil de ser compreendido pela literatura tradicional de análise de Política Externa. A dissociação da centralidade do Estado como agente condutor da política externa e dos atos de governo como característicos das práticas da política externa sugere a substituição da igura do Estado pela de ator e de governo por governança, com a inalidade de se analisar esse novo modelo de política externa em construção na integração europeia (WHITE, 1999). Essa modiicação de conceitos aproxima os instrumentos analíticos de uma nova perspectiva de atuação externa, a qual transcende o estatocentrismo característico da literatura de análise de política externa. É possível, ao longo da construção europeia, encontrar três modelos, ou rótulos, de política externa que em sua totalidade constituiriam a Política Externa Europeia: a Política Externa Comunitária, surgida com a criação das Comunidades Europeias na década de 1950; a Política Externa da União, consolidada a partir do Tratado de Maastricht (1991), que instituiu a União Europeia; e a Política Externa dos Estados Nacionais, presente desde a conformação do Estado Moderno (WHITE, 1999). Durante a história da integração europeia, a relação de equilíbrio entre esses modelos analíticos de política externa foi se modiicando, com a incorporação de novos modelos e com a progressiva transferência de competências das políticas externas nacionais para as políticas comunitárias e da União. A proposta desse artigo é apresentar como, ao longo da segunda metade do século XX e início do XXI, essa coexistência entre modelos de políticas externas foi criada e tem evoluído, desde a fracassada proposta de criação de uma Comunidade Europeia de Defesa (1954) e a assinatura do Tratado de Roma (1957) até as recentes alterações trazidas pelo Tratado de Lisboa (2009). Esse último tratado europeu representaria a consolidação de uma diplomacia europeia e supranacional, superior e independente das estruturas dos governos nacionais europeus, através da criação * Mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB e Bolsista Konrad Adenauer em Estudos Europeus no Centro de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas – FGV (brutheodoro@hotmail.com). BOLETIM MERIDIANO 4 7