Fazendas de Café O patrimônio arquitetônico rural em São Paulo, Brasil, 1800-1940 Vladimir Benincasa Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo - FAPESP Introdução O objetivo deste trabalho é traçar um panorama da arquitetura rural paulista ligada ao ciclo do café, entre 1800 e 1940, um período marcado por grandes transformações socioeconômicas da história do Estado de São Paulo, quando se registra a ocupação efetiva do seu território e assiste-se às mudanças dos regimes políticos (Colônia, Império e República); da técnica e do regime de trabalho no mundo rural; e, principalmente, pelo seu enriquecimento, através da produção e comercialização internacional do café. Além disso, com a melhora nas condições de transporte e comunicação com a Europa e Estados Unidos (ferrovias e navegação a vapor) facilitou-se, durante o século XIX e início do XX, a possibilidade da chegada das novas tendências da arte e da arquitetura aos sertões paulistas – como o neoclássico, o neogótico, o ecletismo, o art nouveau, o art dèco, o neocolonial, o modernismo - o que viria a alterar profundamente a estética das suas construções e mesmo o comportamento da sua população. Para se compreender esse vasto patrimônio, foram visitadas cerca de 340 fazendas nas oito regiões que compunham o cenário da cafeicultura paulista até 1940, do qual se apresenta agora um pequeno painel. O Estado de São Paulo e a cafeicultura A economia no meio rural paulista, até o século XVIII, foi pouco dinâmica, embora tenha produzido uma arquitetura extremamente interessante, conhecida como arquitetura bandeirista, da qual são testemunhas as casas e capelas que chegaram até os tempos atuais como as do Sítio do Padre Inácio, do Sítio Santo Antônio, etc. Nada restou, no entanto, das demais edificações que compunham a propriedade rural paulista de então. Somente a partir da segunda metade do século XVIII, surge uma economia agrícola paulista significativa, quando assume o cargo de governador geral de São Paulo, Dom Luís Antônio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, nobre português que incentivou o desenvolvimento da agricultura em São Paulo, conseguindo bons resultados com a cana-de-açúcar, principalmente no território compreendido entre as cidades de Moji-Guaçu, Jundiaí, Sorocaba e Piracicaba. A arquitetura produzida nesta região e período, segundo Lemos 1 , foi praticamente a mesma dos séculos anteriores. Porém, o relativo desempenho econômico deste ciclo acabou por atrair levas de migrantes de Minas Gerais, que começam a chegar ainda nas últimas décadas do século XVIII. A influência de sua arquitetura se refletiria nas novas fronteiras agrícolas abertas nas regiões além-Jundiaí (de Campinas para o norte). A arquitetura rural dessas novas fronteiras agrícolas abertas pela cana-de-açúcar (cujo ciclo se estendeu até as primeiras décadas do século XIX, alcançando a região do atual município de Rio Claro), incluiu técnicas mineiras do construir, substituindo a taipa de pilão pela taipa de mão, além de introduzir inovações tanto nos aspectos formais, quanto nos programáticos, como por exemplo a inclusão da área de serviço no corpo principal da edificação, a adoção de alpendres e escadarias externas, entre outras. Em fins do século XVIII, uma nova lavoura surgiria em terras paulistas: o café. Por volta de 1790, as plantações de café chegaram ao vale do rio Paraíba, em São Paulo, primeiro à cidade de Areias e, a seguir, a Bananal, a São José do Barreiro, a São Luís do Paraitinga e a Silveiras, além de Ubatuba, no litoral. Daí a cafeicultura foi abrindo caminho e avançando em direção ao Centro-Oeste paulista, sendo Regiões do Estado de São Paulo, Brasil Fonte: Milliet, Sérgio. Roteiro do Café. São Paulo: Hucitec/INC, 1982.