125 “O programa era não ter programa... O tom (...) era elegante, literário, ático.” 2 Conta Pedro Nava que seu tio Antônio Salles, por ocasião da morte de Machado de Assis, em setembro de 1908, escreveu que se tratava de uma “alma grega, exilada em nossos lares...” 3 . Essa espécie de epitáfio ecoa outras opiniões que reconheceram no escritor um certo caráter “grego”, embora pareça que nem todos quisessem, com isso, dizer a mesma coisa. Assim, Gra- ça Aranha, em discurso na Academia Brasileira de Letras, chamou-o “um helênico no meio dos bárbaros que deslumbras” 4 ; por seu lado, Joaquim Nabuco comentava: “eu pelo menos vi nele o grego”. 5 Aparentemente, o próprio Machado não deixará de confirmar esse ponto de vista quando, em carta a Mário de Alencar, de janeiro do próprio ano de sua morte, confessa: “veja como ando grego, meu amigo”. Ora, “andar grego” não implica “ser grego” – e nesse “veja como ando grego, meu amigo” soa alguma espécie de ironia que pode ter sido inspi- rada justamente por declarações bombásticas como as de Graça Aranha e Joaquim Nabuco. A observação da carta é motivada apenas pelas leituras a A GRÉCIA DE MACHADO DE ASSIS 1 J ACYNTHO L INS B RANDÃO Departamento de Letras Clássicas Universidade Federal de Minas Gerais 1 Trabalho publicado em MENDES, Eliana Amarante de Mendonça; OLIVEIRA, Paulo Motta; BENN-IBLER, Veronika. O novo milênio: interfaces lingüísticas e literárias. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2001. p. 351-374. 2 “Notas [do autor a Papéis avulsos]”. Cf. ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. 3 v. (v. 2, p. 364). 3 NAVA, Pedro. Balão cativo: memórias 2. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974 (p. 261). 4 Apud BROCA, Brito. A vida literária no Brasil - 1900. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975 (p. 106). 5 Apud BROCA, op. cit., p. 102. K LÉOS N. 5/6: 125-144, 2001/2