Gerenciamento do patrimônio cultural afro: trajetórias de quatro coleções museológicas na Bahia Ademir Ribeiro Junior 1 Introdução A Bahia é o estado brasileiro onde a contribuição cultural das sociedades africanas é extremamente visível. A religiosidade, a música, a gastronomia, as celebrações, as formas de expressão, a corporalidade, o léxico, enfim, muitas esferas da vida dos baianos refletem substratos culturais das sociedades africanas que vivenciaram a dura e triste história do tráfico negreiro e da diáspora africana. Esse intenso relacionamento histórico tomou concretude também nas realizações materiais e estéticas dos afro-descendentes que aqui viveram. Dentre essas produções destacam-se os objetos sagrados usados com fins ritualísticos, que podem ter chegado da África ou aqui confeccionados mesmo antes da constituição dos terreiros de candomblé como hoje conhecemos. Entre eles estão importantes objetos de arte, que por estarem ligados a elementos religiosos, filosóficos e míticos, testemunham a permanência na Bahia dos aspectos mais profundos das culturas africanas originárias. Muitos desses objetos saíram do contexto dos terreiros por causa da atividade colecionista de pesquisadores ou admiradores, e posteriormente passaram a fazer parte de coleções museológicas abrigadas por instituições de Salvador. Desse modo, é pertinente abordarmos como tem sido feito o gerenciamento desse rico patrimônio cultural, que documenta um importante espectro da história das populações afro-brasileiras. Este artigo divulga e complementa alguns dados e reflexões que fizeram parte da dissertação de mestrado intitulada Parafernália das Mães-Ancestrais: as máscaras gueledé, os edan ogboni e a construção do imaginário sobre as 'sociedades secretas' africanas no Recôncavo Baiano, que foi apresentada em agosto de 2008 ao Programa de Pós-graduação do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo - MAE/USP. Nesse trabalho, foi estudada a história de algumas esculturas de origem iorubá usadas nos antigos terreiros de candomblé de Salvador (cf. Ribeiro Jr. 2008). Também serão expostos aqui alguns dados provenientes da pesquisa que foi efetuada entre 2007 e 2010, período que 1 Arqueólogo e historiador. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN/SE.