XIII Congresso Internacional da ABRALIC Internacionalização do Regional 08 a 12 de julho de 2013 Campina Grande, PB O clone e a teoria da monstruosidade Prof. Dr. Marcio Markendorf i (UFSC) Resumo: No imaginário do horror, os monstros são engendrados como imagens desmedidas, frequentemente concebidas como figuras persecutórias de excesso e/ou de exceção, e muitas vezes criadas com base na imediata oposição ao humano ou natural. Ao analisar obras de cientificção da literatura e do cinema, este trabalho pretende refletir acerca do corpo clônico uma variante moderna do doppelgänger e sua relação com a teoria da monstruosidade, evidenciando como a tecnociência desampara os parâmetros naturalizados da ontologia do monstro ao apresentar o aterrador sob a identidade integral do ser humano. Palavras-chave: clone, doppelgänger, monstruosidade, cientificção, horror. O doppelgänger, uma das imagens primordiais do inconsciente coletivo, é um arquétipo demasiadamente proteiforme e, nas últimas décadas, o contexto ficcional no qual tem sido mais explorado é o da ficção científica. Empregado inicialmente nos textos cômicos, a figura do personagem duplo já enveredou para a literatura fantástica, os dramas psicológicos e a narrativa policial. Quando não trabalha a serviço do riso, a presença do personagem semelhante na ficção deflagra um forte elemento persecutório, uma vez que a duplicação de um sujeito implica a materialização do lado negro da persona e, por isso mesmo, frequentemente torna-se um componente aliciador da morte e perpetrador de crimes. Nas formas fantasmáticas do eu duplicado, perder a sombra do corpo ou o reflexo do espelho equivale a perder a alma ou a consciência. Mediante o viés filosófico do gênero de cientificção, o doppelgänger passa a focar-se em um curioso objeto, o clone, entidade biológica hipoteticamente admissível e que permite conjecturar, via narrativa, o que é que se perderia na duplicação. O pensador francês Jean Baudrillard (2001), meditando sobre a proeza da duplicação de seres vivos, apresenta pertinentes observações acerca da relação entre a clonagem e o sonho da imortalidade humana. Para ele, o passado primitivo da biosfera seria marcado pela simplicidade celular, isto é, pela presença de seres vivos que se multiplicavam por divisão celular, tornando-se idênticos uns aos outros e, com isso, detentores de uma condição imortal. Seguindo esse raciocínio, o preço exigido pela natureza para o surgimento dos processos de diferenciação e de individuação seria o da mortalidade. Assim, na escala evolutiva, os mortais tornam-se seres complexos que, salvo raros casos, recusam o estado primitivo de diferença mínima e de repetição dos seres vivos. O advento da clonagem, segundo Baudrillard, não seria uma vitória da ciência, antes constituiria uma espécie de regressão artificial, de tentativa de reativar a imortalidade, algo que só pode ser patológico se comparado à reprodução sem fim de uma célula cancerosa. De acordo com a perspectiva pós-moderna do autor, o pretenso progresso da ciência não seguiria uma linha reta, mas uma curva que retornaria as coisas à origem, produzindo a “involução”, a “solução final”. O descobrimento da clonagem seria um modo de dissociar a vida da morte, prática eivada de efeitos colaterais, pois uma série de funções humanas seria tornada inútil, posicionando a nova humanidade para além do humano e do inumano. Conforme tal visão profética e apocalíptica do porvir, o sexo, a morte, o pensamento e os próprios seres humanos poderiam ser desenhados como formas de lazer, atrações ontológicas. Baudrillard (2001, p. 18) radicalmente observa que “em momentos futuros da civilização, dos quais a morte terá sido eliminada, clones do futuro poderão pagar alto pelo luxo de