A dicotomia urbana em Moçambique: a cidade de cimento vs cidade de caniço Mário G. FERNANDES (1) e Rui MENDES (2) Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1) mgfernan@letras.up.pt; (2) ruipaesmendes@gmail.com Resumo As urbes moçambicanas são cidade duais. Coexistem num mesmo espaço duas cidades, temporal e tecnicamente distantes mas imbricadamente ligadas entre si e interdependentes. Tecnicamente opostas entre si, estas duas faces da mesma moeda estabeleceram relações de interdependência muito fortes: de um lado a cidade de cimento que necessita da mão-de-obra daqueles que habitam na cidade de caniço; nesta última aqueles que demandam a cidade formal para assegurar o seu modo de vida. A independência de Moçambique altera a perspectiva com que os poderes encaravam a cidade de caniço. De espaços tolerados mas não reconhecidos e sem direitos de propriedade, eternamente suspensos em terrenos muitas vezes impróprios para habitação , passamos para uma realidade em que esses espaços são reconhecidos como parte integrante da cidade, sendo encetadas políticas – muitas com o apoio de organismos internacionais – de valorização e organização dos espaços e das pessoas. As alterações políticas, guerras, e maus anos agrícolas provocam em Moçambique um intenso êxodo rural que provoca o crescimento exponencial desses espaços de tal forma que várias das cidades moçambicanas são maioritariamente constituídas pelo caniço que cercam a cidade formal e muitas vezes ocupam os espaços livres (praças, jardins,…) do coração urbano das mesmas. Palavras-chave: Moçambique, urbanismo, morfologia urbana Summary Mozambican cities are frequently dual, and two morfo-typological realities which are clearly different coexist in the same city, timely and technically distinguishable, whereas interdependent and imbricatedly connected to one another. Technically and morphologically opposites, these two sides of the same coin have established strong interdependence relations: on one side the concrete city that needs the labor force of those who live in the reed city; on this latest, those that demand that the formal city provides for their lifestyle. Mozambique’s independence would change the perspective with which the ruling powers would face the reed city. From tolerated but not acknowledge spaces with no property rights, forever based in properties very often unfit for housing, there came a time in which these areas became acknowledged as