AUTO-PRECEDENTE E ARGUMENTAÇÃO RACIONAL 1 José Renato Gaziero Cella 2 www.cella.com.br Introdução Quando se fala em razão, em argumentação racional, em filosofia, vem logo à mente a idéia de uma tentativa de se encontrar explicações racionais para os fenômenos naturais, uma tentativa de se dar sentido à vida, em síntese, uma tentativa de se encontrar a Verdade. Ocorre que, cada vez mais, paradoxalmente, tem-se concluído que a Verdade — não a verdade em sentido fraco 3 — é contrária à razão, vez que está associada a totalitarismos, a fanatismos que impõem uma forma de se conceber o mundo e excluem qualquer outra possibilidade de pensamento. 1 Conferência proferida em 12 de novembro de 2001 no Curso de Extensão "RAZÃO X VIOLÊNCIA: O ESPAÇO DA RACIONALIDADE NUM MUNDO INTOLERANTE", que teve lugar nos dias 12 e 13 de novembro de 2001 no Auditório Maria Montessori, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC/PR, org. por José Renato Gaziero Cella e Melissa Folmann. 2 Mestre em Direito do Estado pela Universidade Federal do Paraná - UFPR; Professor de Filosofia do Direito e de Introdução ao Estudo do Direito na Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC/PR. 3 "Os promotores do relativismo cultural e da ‘superstição mais elevada’ tendem a despejar desprezo na busca da verdade. Isso deriva parcialmente da convicção de que as verdades são diferentes em culturas diferentes (...) e parcialmente da incapacidade de os filósofos da ciência concordarem de algum modo sobre a verdade. Há certamente dificuldades filosóficas genuínas. Uma verdade é apenas uma hipótese não falsificada até o presente momento? Que status possui a verdade no estranho e incerto mundo da teoria quântica? Algo é em última análise verdadeiro? Por outro lado, nenhum filósofo encontra dificuldade em usar a linguagem da verdade quando é falsamente acusado de um crime, ou quando suspeita que sua esposa cometeu adultério. “É verdade?’ parece então uma pergunta justa, e poucos dos que a formulam nas suas vidas privadas ficariam satisfeitos em ter como resposta um sofisma argumentativo. Os experimentadores do pensamento quântico talvez não saibam em que sentido é ‘verdade’ que o gato de Schrödinger está morto. Mas todo mundo sabe o que é verdadeiro na declaração de que Jane, a gata da minha infância, está morta. E, em muitas verdades científicas, o que afirmamos é apenas que elas são verdadeiras nesse mesmo sentido comum. Se lhe digo que os humanos e os chimpanzés partilham um antepassado comum, você pode duvidar da verdade da minha afirmação e procurar (em vão) evidências de que ela é falsa. Nós dois sabemos, no entanto, o que significaria se ela fosse verdadeira, e o que significaria se ela fosse falsa. Está na mesma categoria de: ‘É verdade que você esteve em Oxford na noite do crime?’, e não na mesma categoria difícil de: ‘É verdade que um quantum tem posição?’. Sim, há dificuldades filosóficas sobre a verdade, mas podemos ir bem longe antes de ser preciso que delas nos ocupemos. A criação prematura de alegados problemas filosóficos é às vezes uma cortina de fumaça para a discórdia”